Crônicas de Session: Lock-ins, pequenas mágicas e grandes surpresas



Quando a idéia das Crônicas de Sessões surgiu, o pessoal do O Pint Diário pediu para eu escrever algo, afinal depois de sete anos como anfitriã de sessão eu haveria de ter alguma história pra contar. Eu passei meses pensando em uma história que valesse a pena e como contaria. Depois de muito pensar eu lembrei de uma situação específica, mas pra deixar esse momento ainda mais interessante vale a pena primeiro falar de um fenômeno que quando ocorre é como mágica; os Lock-ins.

Para entender a raridade de uma sessão Lock-in é necessário explicar um pouco sobre pequenas burocracias e a tão conhecida relação dos Irlandeses com o álcool.

Por exemplo, para restringir os horários de consumo na Irlanda, não se vende bebida alcoólica em mercados depois das 22, e também por isso o sino da última pint de um bar badala às 23:00. Pubs pagam multas quando vendem depois do horário permitido em sua licença, assim como têm horário certo para fechar. Portanto, em um dia normal, músicos e clientes são varridos pub afora antes do relógio bater meia noite. Por isso a lock-in além de mágica é por assim dizer uma pequena ilegalidade que pode trazer prejuízo para o dono do bar quando flagrada.


Lock-in em inglês significa “trancado dentro” e é aquele momento quando o dono do bar fecha as persianas, tranca as portas e avisa discretamente que não é necessário ir embora.

É quando estão só os amigos, habitués e insiders da patota, onde não há hora pra acabar, nem limite de quanto beber. A nossa sessão era em um Pub um pouco fora do circuito de sessões de Galway e que para nossa sorte, era o bar de um hotel. Sendo assim, para bem atender os hóspedes, o horário da última pint era uma área cinzenta. Lógico que em sete anos tivemos muitas noites de fevereiros gelados que não tinha viva alma no bar e não víamos a hora de acabar. Mas por outro lado tivemos sessões mágicas que foram noite adentro.


Eu nunca fui dada a “name dropping", aliás, fazia um esforço em não saber nomes de músicos famosos, de maneira que no final da sessão se alguém me dissesse “você sabe quem era aquela pessoa?” eu não saberia dizer. Isso acabou sendo útil para que não me intimidasse muito na hora de tocar, o que também me rendeu boas amizades, aulas e conversas que se estivesse ocupada no meu deslumbramento, certamente não aconteceriam. Por isso é possível que músicos conhecidos tenham passado, tocado e/ou assistido às minhas sessions sem que eu nem tenha percebido.

Várias vezes víamos uma pessoa chegando mais perto da mesa, aplaudindo com mais entusiasmo e puxando conversa no final da noite.


Nessas tivemos sessões que acabaram às 4 da manhã (a pedido do John do bar que já não aguentava mais) onde o nosso Trad se misturava com jazz, blues, manusch, música bretã, brasileira, italiana e por aí vai. Uma dessas noites, meu namorado em uma das suas pausas nicotinadas me avisa, “aquele senhor ali é o Maurice Lennon e ele gostou do seu violino”. Eu não pensei duas vezes, toquei um dos meus reels favoritos “The Road to Garisson” composto por ele. Quando abro os olhos e olho para o lado lá está o Maurice tocando comigo no violino do meu namorado. Como se isso já não fosse incrível, um outro cliente do bar foi se aproximando mais da mesa e depois deste set, desapareceu. Minutos depois ele chega com seu violino que tinha microfonação (indicativo forte que é bom violinista).


O violinista se apresenta e pede para tentar tocar um pouco com a gente. Seu primeiro nome é Gilles, ele era muito modesto e dava pra ver que estava ávido para aprender.

Lá pra bem depois da meia noite, Gilles começa a tocar linhas e improvisar*.

Então percebemos que o hóspede francês que veio para Irlanda com seu violino era um músico incrível. Pedimos para ele tocar seu repertório e aí a sessão virou um concerto particular onde Gilles Apap (vencedor do concurso Yehudi Menuhin categoria música contemporânea) convida Maurice Lennon para tocar com ele. Terminamos a noite ouvindo esse dueto improvável tocando “Over the Rainbow” às 3:30 da manhã. Importante salientar que a noite só terminou ali porque o John do bar pediu pela décima vez para por favor pararmos pois ele (como sempre) já não aguentava mais.


E com essa crônica eu chego à uma conclusão; por mais que seja lindo o deslumbramento e a procura dos "grandes nomes" da música Irlandesa, eu pessoalmente prefiro ver apenas grandes músicos e grandes pessoas, tocando sem compromisso, às vezes fora da sua área de conforto, e sempre compartilhando seu talento e alegria de tocar. Um dia pode ser que escreva sobre este fenômeno da fama de músicos tradicionais e como isso poderia ser contra intuitivo em um estilo de música tradicional, popular e portanto, despretensioso por natureza (quer saber mais? Comenta aqui!).


Por enquanto isso é outra história, mas termino minha crônica com essa reflexão de que, também há valor de ver uma pessoa "normal", despida de nome e fama, virando como mágica um músico incrível, e com muita sorte, essa mágica pode acontecer noite adentro, despretensiosamente, num pub com portas trancadas.


*Nota de rodapé: por favor não façam isso a não ser que tenham ou MUITA noção de improvisação ou sejam os donos da sessão, daí vocês podem tudo…. Mas se forem fazer, peçam permissão para os coleguinhas antes!


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