Crônicas de Session: O Princípio da Certeza de Galway City

A nossa crônica de session de hoje consiste em uma hipótese que eu criei a partir de algumas experiências que tenho vivido e de muitas histórias similares que ouvi de amigos. Como cientista, fui atrás de testar a minha hipótese e, a partir do teste, escrevi um artigo. Como um bom artigo científico, está disposto na forma sugerida pelas normas acadêmicas e por isso logo no início vocês podem notar o sumário. Quem sabe alguma revista científica por aí não se interessa e publica não é mesmo?rs No entanto, me dei ao direito de algumas licenças poéticas rs. Enquanto ninguém publica e eu não viro uma cientista famosa nos meios acadêmicos, segue o assunto ao qual tenho me dedicado nos últimos meses publicado em nosso querido site d’O Pint.

SUMÁRIO

  1. Introdução

  2. Materiais e métodos

  3. A Moça Loira do Acordeon

  4. O Retrato da Parede

  5. O Antigo Fiddler Novo

  6. O Homem Atrás de Você

  7. Conclusão e Discussão

  8. Referências


1) Introdução

Na Mecânica Quântica existe um conceito (bem mal interpretado por aí afora) que se chama “O Princípio da Incerteza de Heisenberg”. Ele, resumidamente, diz que se é possível determinar a posição de uma partícula, não é possível determinar a massa dessa mesma. E o oposto também acontece (um resumo muito, muito breve e simplista). Pois bem, a partir desse conceito, eu decidi postular “O Princípio da Certeza de Galway City”. Este segundo consiste no fato de que, se um músico irlandês muito famoso não passou por Galway City, ele, com certeza, irá passar. E, se já passou, ele vai passar muitas vezes mais. E, a partir deste ponto de vista, nós podemos interpretar que: se não for possível determinar a posição de um músico irlandês, vá para Galway City e aguarde algum tempo pois, com certeza, ele vai passar por aqui e, a partir desse momento, você terá a posição dele como conhecida. Por estes motivos que, como vocês podem perceber, são absolutamente científicos, eu nomeei este enunciado de “O Princípio da Certeza de Galway City”. E, para demonstrar a veracidade da minha teoria, trouxe aqui para vocês quatro estudos de caso que consistem em quatro saídas a campo para coleta de dados que possam dar consistência (ou até rejeitar) à minha hipótese.


2) Materiais e Métodos

Para este estudo foram executadas quatro saídas de campo que consistem em quatro irish sessions ocorridas em dois diferentes pubs da cidade de Galway City, Co. Galway, Irlanda sendo estes os tradicionais Monroe’s Tavern e o The Crane Bar. Os dados coletados são provenientes de observação e escuta das irish sessions. Os materiais necessários foram: um celular com acesso à internet para que se obtivesse um comparativo entre e imagem real e virtual do objeto observado e alguns pints de cerveja providos pelos próprios pubs (e pagos por mim mesma) para que fosse alcançado o estado de consciência necessário que me permitisse acreditar no que eu via.


a. A Moça Loira do Acordeon

Eu já tinha algum conhecimento teórico sobre a questão da presença de músicos trad famosos em Galway, mas foi em uma bela sexta-feira de inverno que eu tive as primeiras evidências empíricas através de uma saída a campo.

Estava eu entrando neste pub chamado Monroe’s Tavern onde acontece uma session que gosto muito de assistir quando, depois de pedir uma cerveja, olho para os músicos e vejo uma moça loira tocando acordeon que me era muito familiar mas que eu não tinha muita certeza de onde eu já a tinha visto. Eu olhava e pensava e olhava e pensava e olhava e pensava quando me lembrei de um artigo aqui mesmo d’O Pint sobre o lançamento de um álbum da artista Sharon Shannon. Pensei: será ela? Dei aquele google imagens para ver e, nossa, era realmente muito parecida, mas ainda assim né, podia ser só uma coincidência, afinal, o trabalho do cientista é duvidar. Maldito dia para ir sozinha pro pub. Mandei mensagem pros amigos e, pimba, algumas fotos e vídeos enviados depois, era a própria em carne, osso e acordeon. Fiquei ali admirando e admirando até que eu me dei conta de que ela parecia estar olhando incomodada para o meu lado. Acho que fiquei tempo demais olhando só para ela.

Mas o fato é que esta foi a minha primeira evidência comprovada empiricamente sobre a posição espacial dos músicos irlandeses famosos. Depois disso eu descobri que ela mora aqui na cidade rs.



b. O Retrato da Parede Meu segundo experimento de campo foi no dia de St. Patrick em que fomos eu e Mila atrás de alguma session interessante e não muito lotada no dia 17. Entramos no Crane, um pub super tradicional daqui de Galway (temos alguns posts sobre ele em nosso perfil do instagram) e então eu vi que havia uma session bem simples: um violonista que, por acaso, eu conhecia e se chamava Paul e, junto com ele, um whistler que eu não conhecia mas que parecia tocar muito bem. Em um dado momento da session, eu precisava de um banquinho para sentar e todas as pessoas ao meu redor me falavam para pedir o banquinho que estava ao lado dos músicos na session. Eu estava com muita vergonha mas acabei indo lá pedir. E foi neste momento que este distinto whistler vira pra mim e fala: “ah você também é flautista (e ele sabia disso porque tinha me visto na rua tocando), venha tocar umas tunes com a gente”. Eu, que só estava ali para pegar o tal banquinho, neguei gentilmente e agradeci o convite. Mais tarde, Mila teve um insight: olha só, o senhor tocando whistle é igualzinho à pintura na parede. E, de fato, a pintura na parede do palco do Crane Pub é um senhor de cabelo e barba compridos, tocando uma whistle, sentado em um banquinho e com um cachorrinho do lado (a coisa mais linda). Ficamos achando isso interessante até que, não me lembro bem como, descobrimos que a pintura na parede não apenas se parecia com o senhor da whistle, mas ERA O PRÓPRIO e o motivo disso era porque ele é Sean Ryan, um famoso e tradicional whistler do condado de Tipperary. Isso explicava o porque ele não só estava na parede de um dos pubs mais tradicionais como também estava tocando na tradicional session de St. Patrick’s Day. Este experimento agregou mais um postulado para o meu Princípio da Certeza: no dia mais tradicional da Irlanda, em um dos pubs mais tradicionais de Galway (talvez da Irlanda) a probabilidade de um músico tocando na tradicional session ser uma grande lenda do irish trad é muito, mas muito alta (por isso, fuking vá conhecer os músicos trad, assim você não passa a mesma vergonha que eu passei negando tocar com uma lenda dessas rs).


c. O Antigo Fiddler Novo

Alguém aqui conhece o Lúnasa? Pois se não conhece, leia de novo a história anterior e vá conhecer imediatamente. Acontece que esta session das sextas-feiras aqui de Galway, desde que eu comecei a frequentar, tinha um fiddler como host (host é a pessoa que organiza a session, resumidamente). Michael Chang é o nome dele e, caso alguém queira conhecer, temos aqui n’O Pint um artigo sobre um de seus grupos musicais: Baile an Salsa. Era sempre este mesmo fiddler, até que, a partir de um certo momento ele começou a ter outros trabalhos nas sextas feiras e precisou se ausentar das sessions de sexta. Pois bem, em uma bela sexta feira, chegamos eu e Leonardo para assistir e, lá estava um fiddler de cabelos bem vermelhos e com uma carinha que não nos era estranha. A princípio, tudo ok! Apenas mais um novo host da session. Com o passar das cervejas, senhor Leonardo começa a visualizar que ele se parecia muito com o antigo fiddler do Lúnasa. Mas, quê? Será possível? Pois, se até agora vocês não entenderam isso, parabéns, vocês são como eu que duvidei até o último gole mas depois tive que me render ao google imagens. Era mesmo Sean Smyth e estava ali, na nossa cara, puxando umas tunes e bebendo umas Guinness. Enfim, mais um dado em favor da minha teoria.



d. O Homem Atrás de Você

Para se fazer uma boa análise científica, é necessário um bom espaço amostral. Mas não somente isso, é necessário que se repita o mesmo experimento nas mesmas condições das vezes anteriores. Por este motivo, estávamos eu e Leonardo mais uma vez, na mesma session, do mesmo pub em mais uma sexta-feira e, dessa vez, já sabíamos que era Sean Smyth, antigo fiddler do Lúnasa, quem iria hostear. Meu coração estava preparado afinal, para mim, eu já estava vacinada sobre essa tal coisa de encontrar músicos famosos porque eu já tinha encontrado vários. Nada poderia me surpreender mais. Vai vendo… Pois esta session começou bonita como sempre, uma tune aqui, uma conversa ali, algumas cervejas se passam até que chega ali um querido amigo nosso. Estávamos todos conversando e eu estava até com a flauta montada arriscando puxar umas tunes (nessa session, isso é super ousado da minha parte rs) quando esse amigo vira e fala bem baixinho: o cara que está de pé atrás de vocês, é o Michael McGoldrick. Eu gelei e, disfarçadamente, tentei olhar pra trás. Nisso, eu reparei que ele, o cara que estava atrás de mim, tinha um case junto com ele e, bem no fecho do case estava escrito : Mike. Meu olhar foi subindo e subindo e subindo mais um pouquinho, afinal de contas, são meus 150cm contra os quase 200 dele né. Quando notei que ele estava de boné (Não é nenhuma regra mas normalmente o McGoldrick usa esse boné).

Depois disso, ele se sentou ao lado do Sean Smyth e começou a puxar vários sets do Lúnasa. Fiquei emocionada.

E, talvez tenha sido essa emoção ou talvez tenha sido a quantidade de histórias dessas que eu já ouvi dos meus amigos, ou talvez tenha sido só uma busca por certezas mas o fato é que naquele momento eu tive esse pensamento de que, se existe um músico do trad famoso, ele vai passar por Galway City. Se eu nunca o tiver visto ao vivo na vida, eu o verei nesta cidade. O Princípio da Certeza de Galway não poderia ter sido mais bem comprovado do que com a presença de Michel McGoldrick na mesma session que eu.



3) Conclusão e Discussão

Os dados coletados nas descrições anteriores são frutos das minhas vivências pessoais. No entanto possuo relatos de outros cientistas que fizeram experimentos em iguais condições ou muito próximas e obtiveram resultados que corroboram para que minha hipótese seja validada. É o caso por exemplo do pesquisador Cesar Benzoni que afirma ter observado em sua própria residência (estabelecida na mesma cidade já citada) o criador do jogo de vídeo game Doom. Ou também da pesquisadora Mila Maia que captou a presença de Frankie Gavin, Sharon Shannon (olha só a gente chegando em dados iguais), Martin Hayes, Steve Cooney, Robert Plant (é, o próprio), Martin O'Connor (segundo a própria, ela já o encontrou em uma loja de conveniência daqui).


Por tanto, pode-se concluir que, se você não sabe a posição exata de um músico trad famoso (ou, como vimos acima, até mesmo de um músico de outro estilo), aguarde em Galway City pois ele passará por aqui.


E quem sabe um dia eu não consiga produzir um gráfico com a probabilidade da presença destes artistas em determinadas fases do ano né?! rs Fica pra outro dia…


4) Referências

Hawking, S: Uma Breve História do Tempo. 1ªEd. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015. p.75. O Princípio da Incerteza (pois é, eu reli o capítulo pra não falar besteira rs).


Irish sessions semanais.


Conversas com os amigos regada a cervejinha!


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