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Introdução à Música Celta |Parte 3| A música na Irlanda de 1850 aos dias atuais

Olá queridos leitores, hoje nós vamos continuar com a terceira parte dos textos do Kevin Shortall , atual presidente da Comhaltas Brasil sobre as orígens da música irlandesa. Para quem não leu ou quer relembrar, vocês podem encontrar as partes 1 e 2 aqui mesmo clicando nos respectivos números!

Boa leitura!


A luta pela independência e o estabelecimento da República da Irlanda

A Grande Fome foi devastadora para a língua gaélica e para música tradicional. As regiões mais afetadas durante e após a Fome foram justamente os assentamentos rurais onde se falava o gaélico e onde a música tradicional se fazia presente. A emigração massiva que se tornou a regra nestas regiões esvaziou suas populações, que, por necessidade de sobrevivência adotaram a língua inglesa cada vez mais. Os emigrantes irlandeses, por sua vez, em muitos casos abandonaram sua língua de origem em seus novos países. Com isso, uma parte enorme do repertório de canções de língua irlandesa acabou saindo da tradição oral.

Durante a Grande Fome iniciou-se um processo de expulsão dos camponeses das terras em que trabalhavam em boa parte das áreas rurais da ilha, processo que duraria até o fim do século XIX e resultaria em uma reforma agrária na ilha. Várias canções retratam os confrontos da época, como The Wife of the Bold Tenant Farmer. A Igreja Católica, que havia voltado à legalidade na ilha no início do século, voltou a ser extremamente ativa, adotando uma postura moralista que muitas vezes desencorajava as danças rurais, consideradas pecaminosas pelos padres.

Apesar de tudo isso, instrumentos novos foram incorporados à música irlandesa no fim do século XIX, como o acordeão de botões, a concertina, a flauta de sistema simples (descendente da flauta barroca) e a tin whistle. As uilleann pipes, devido ao seu alto custo e dificuldade de aprendizado, começaram a rarear, sendo substituídas pelos recém-chegados acordeões.

Na década de 1890 iniciou-se um processo de valorização da cultura gaélica nos centros urbanos irlandeses, através de associações culturais como a Conradh na Gaeilge (Liga Gaélica), e a Gaelic Athletics Association (esta feita com o propósito de difundir esportes de origem gaélica, como o hurling e o futebol gaélico). Este revival teve um caráter urbano e de classe média, sendo muitas vezes criticado por ser excessivamente romântico e normatizador, criando ideais de dança e música tradicional que muitas vezes não eram diretamente ligado à realidade rural em que a dança e a música eram praticadas. Fundou-se também, em 1898, o primeiro clube de gaiteiros de fole, em Cork, como parte de uma tentativa de impedir o desaparecimento das uilleann pipes da música tradicional.

Em paralelo a esses movimentos de revalorização cultural, houve também um crescimento do movimento político pela independência da Irlanda. Em 1916 ocorreu o levante de Páscoa em Dublin, que foi duramente reprimido pelo governo britânico, com a execução sumária de vários dos líderes capturados. O público irlandês, que havia se tornado apático em relação à independência, voltou a apoiar fervorosamente o movimento independentista. O Sinn Féin, principal partido independentista, iniciou uma tática bem-sucedida de boicote ao Estado britânico, criando um Estado paralelo em várias regiões da Irlanda, junto a uma violenta guerrilha voltada contra o aparelho estatal britânico. Em 1920, o primeiro-ministro britânico assinou uma trégua e reconheceu a independência de 26 dos 32 condados da Irlanda, os outros 6 condados remanescentes permanecendo parte do Reino Unido. Imediatamente iniciou-se uma guerra civil no recém-criado Estado Livre Irlandês, entre os que favoreciam a independência imediata com a divisão da ilha, e os que defendiam que a luta continuasse até a independência de toda a ilha. A guerra civil irlandesa durou quase três anos, e terminou com a vitória do partido favorável à independência imediata e partição da Irlanda.

O governo que se instituiu no Estado Livre Irlandês favoreceu políticas extremamente conservadoras, socialmente. Embora a cultura irlandesa fosse encorajada por vários órgãos públicos, ela o era sob uma forte regulamentação do Estado e da Igreja Católica, que havia ganhado status de religião oficial do Estado. Danças sem supervisão em locais rurais foram proibidas por serem “condutivas à imoralidade”, sendo comum tais danças serem debandadas por padres acompanhados da polícia. Em vários locais as tradicionais danças que aconteciam de forma espontânea em vilarejos deixaram de existir, sendo substituídas por danças supervisionadas por padres em salões de dança oficiais, construídos pelo Estado. Tal restrição selou o final de uma manifestação cultural ancestral, mas iniciou-se outra manifestação aí com o advento das bandas de céilí, criadas para tocar música de dança tradicional em tais salões. Compostas normalmente por piano, caixa, violinos, flautas e acordeão, tais bandas se tornaram extremamente comuns por toda a diáspora Irlandesa.

No início do século XX, o início das gravações comerciais levaram a música irlandesa a novos públicos. Inicialmente feitas nos Estados Unidos, gravações de violinistas e gaiteiros como Patsy Touhey e James Morrison tiveram boa vendagem nos EUA e também na Irlanda. O advento das gravações também ajudou a registrar estilos musicais regionais ameaçados de extinção.

Após a Segunda Guerra Mundial, a Irlanda começou a se tornar mais integrada com a economia européia, levando a um crescimento da classe média e uma maior abertura da sociedade. Os pubs, que antes eram um espaço masculino, passaram a ser um espaço familiar, e muitos destes estabelecimentos começaram a ter músicos pagos tocando neles, que misturavam um repertório de música tradicional com outros gêneros populares na época.

Em paralelo, o Dublin Piper’s Club foi reativado, com uma visão de aproximar a música irlandesa rural do meio urbano, sem as idealizações românticas que haviam ocorrido na geração anterior. Os esforços do Piper’s Club levaram à criação do Fleadh Cheoil, um festival de música tradicional anual itinerante que ocorre até hoje e leva milhares de pessoas à cidade anfitriã, celebrando as várias tradições diferentes da música irlandesa. Foi fundado também a Comhaltas Ceoltoírí Éireann, instituição dedicada ao ensino de música irlandesa, que rapidamente se espalhou por toda a Irlanda. A Comhaltas hoje possui filiais em vários outros países, como os EUA, Reino Unido, Austrália e Argentina.

No fim da década de 60, o grupo vocal Tommy Makem and the Clancy Brothers teve enorme sucesso comercial nos EUA, e depois na Irlanda, com um repertório de baladas anglo-irlandesas, e criou uma febre de grupos semelhantes, como os Dubliners e os Wolfe Tones, e trazendo este repertório de volta à popularidade até os dias de hoje.

Talvez a maior contribuição para a música de dança tenha vindo de Seán Ó Riada. Treinado como compositor clássico, Ó Riada criou trilhas sonoras para filmes importantes misturando a música irlandesa com orquestrações clássicas. Fundou o importantíssimo conjunto Ceoltóirí Chualann, no qual introduziu o bodhrán e buscou fazer uma música irlandesa de dança ao mesmo tempo camerística e tradicional. Resgatou também composições dos harpistas viajantes, como Turlough O’Carolan, que estavam praticamente esquecidas.

As décadas de 50 e 60 também presenciaram o nascimento das sessions em pubs. As origens das sessions são difíceis de precisar, mas parecem ter ocorrido em vários lugares paralelamente, inclusive fora da Irlanda, em outros países da diáspora, como os EUA e Reino Unido. As sessions de pubs supriram a necessidade de se fazer música tradicional em um ambiente mais informal que os salões de dança supervisionados pela Igreja Católica, e desde então se espalharam por todo o mundo, inclusive o Brasil.

A partir de então surgiram diversos conjuntos menores que as céilí bands até então prevalecentes, com instrumentos diversos e feitos com o objetivo de fazer música para se ouvir e não só dançar. Vários conjuntos, conhecidos como supergroups, foram instrumentais em levar a música irlandesa de dança para um público mais jovem e ao redor do mundo, como The Chieftains, The Bothy Band, Planxty e De Dannan. Tais grupos também ajudaram a popularizar instrumentos que não eram comuns na música de dança, como o bodhrán, o violão e o bouzouki.

Músicas do repertório tradicional começaram a ser regravadas por bandas de rock, levando-as a um público completamente novo. Ao mesmo tempo, a música irlandesa passou a ser comum em trilhas sonoras de filmes passados de ambientação “medieval”. Gêneros musicais influenciados pelo repertório irlandês começaram a surgir, como o New Age, Irish Punk e Folk Metal. A música irlandesa passou a alcançar públicos que muitas vezes nem sabiam mais a origem daquela música.

Espetáculos itinerantes de dança e música irlandesa começaram a surgir a partir da década de 80, culminando no estrondoso sucesso de Riverdance, que viajou o mundo na década de 90, com uma abordagem mais performática, moderna e coreografada da dança irlandesa, e com música irlandesa tocada em arranjos quase orquestrais. Vários outros grupos de dança imitando o Riverdance surgiram no seu encalço, como The Lord of the Dance e Celtic Legends.

A música irlandesa, atualmente, possui mais popularidade do que nunca, graças à sua comercialização pela grande mídia. Embora tal popularização garanta sua continuidade, com praticantes de nível cada vez mais alto por todo o mundo, inevitavelmente surge também o debate sobre os valores comunais que sempre foram associados à tradição, e que correm o risco de se perder em nome do lucro.


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