Kevin Conneff: o ritmo e a voz

Nem todos os grandes músicos do trad caíram no caldeirão dos reels e jigs assim que nasceram, mas isso não os torna menos dignos da devida importância e reverência.

A voz e o coração pulsante dos lendários Chieftains, Kevin Conneff, nasceu e cresceu no coração de Dublin, mas achava ‘brega e estranha’ a música que tocava seu vizinho Breandán Breathnach, um importantíssimo gaiteiro e teórico da música irlandesa.

Isso não quer dizer que não gostasse de música, era um ouvinte ávido do que tocava na rádio no seu tempo.

Seu interesse pela música tradicional só veio aos 18 anos. Depois de começar a trabalhar em uma empresa de impressões fotográficas, foi convidado por colegas de trabalho para ir a festivais de música no interior, os fleadh ceoil.

“O primeiro lugar onde eu encontrei de fato a música foi em Mullingar, no meio da Irlanda, quando eu ouvi essas pessoas tocando, fazendeiros na verdade. Eu fiquei chocado. Eu lembro de pensar: eles são tão bons quanto os músicos de jazz, como Charlie Parker, que eu tenho ouvido nos discos”

A partir desse primeiro fim de semana em Mullingar se seguiram muitos outros, além de sessions em Dublin festivais de verão por toda a Irlanda, e o envolvimento de Kevin foi inevitável, aprendendo cada vez mais canções e se desenvolvendo no bodhrán.

No meio dos anos 60, quando o folk revival chegava com tudo à Irlanda, Kevin e uns amigos criaram e gerenciaram um clube de ouvintes, o Tradition Club, dedicado à canção tradicional no andar de baixo do Slattery’s Pub. A idéia era que a música fosse o centro das atenções, portanto as pessoas deveriam estar em silêncio no bar, o que não era nada usual na época. Podemos suspeitar que o costume atual de se pedir silêncio quando alguém vai cantar no pub tenha vindo daí.

O convite para se tornar um Chieftain veio em 1976, à propósito da saída daquele que, na época, tocava bodhrán no grupo, Peadar Mercier, que já tinha alguma idade.

Paddy Moloney entrou em contato com Kevin, que tinham se conhecido em um fleadh anos antes, convidando-o para gravar em Londres algumas faixas para o álbum Bonaparte’s Retreat, que estava sendo preparado.

“Eu estava trabalhando na sala escura quando recebi a ligação de Paddy” lembra Kevin. “Disse que tinha que acertar com o meu chefe primeiro. Quando eu pedi uma semana de férias, ele aceitou, contanto que eu tivesse todo o meu trabalho terminado e não tivesse nada na minha bandeja. Isso significava trabalhar horas extras, mas eu fiz isso.”

Em meio às gravações, Paddy o convidou para um pint e aí fez a proposta para entrar definitivamente para o grupo. Isso significava estar na estrada pelo menos seis meses no ano e se afastar do trabalho e amigos, mas depois de pesar as condições ele aceitou.

Sua estreia no palco não foi nada menos do que um concerto ao lado de Eric Clapton no Crystal Palace Festival.

Apesar da estreia promissora, por mais de um ano Kevin teve muitas dificuldades em se adaptar ao estilo de vida que a banda levava, especialmente quando estavam viajando. Os Chieftains tinham sempre assentos separados no avião e ficavam em quartos de hotel em andares diferentes, então raramente se encontravam a não ser para os ensaios e shows. A falta de vida social e a distância da família e amigos o levaram a ensaiar uma saída do grupo, mas ele acabou por se adaptar.



Boil The Breakfast Early, o nono álbum dos Chieftains e terceiro em que ele fazia parte, foi o primeiro a contar com Kevin Conneff como cantor, papel que ele desempenhou com muita força daí para frente.

Além dos muitos anos de estrada, países visitados, concertos, premiações, ele lançou um álbum solo “The Week Before Easter”


A importância deste grande músico não está em trazer nada de propriamente novo para a tradição, mas está precisamente em levar essa tradição, como algo novo, mundo afora. Sem virtuosismos baratos, mas com consistência e paixão. O que ele fez nos Chieftains e continua fazendo pode parecer simples, mas é exatamente aí que está a sua grandiosidade.



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