• Paula Buceli

O Diálogo entre Brasil e Irlanda

Atualizado: Ago 30




Será que há algum tipo de conversa entre a música brasileira e a música irlandesa? Será que existem elementos em comum entre essas duas linguagens que parecem tão distintas?

Tenho notado semelhanças rítmicas e melódicas que permitem um diálogo fluido entre os dois estilos.


Quando ouvimos um maxixe como “Tico Tico no Fubá” de Zequinha de Abreu jamais diríamos que ele tem alguma relação com música irlandesa, especialmente se levarmos em conta a instrumentação de ambos. O primeiro é feito para piano e também pode ser tocado por um grupo de choro com violão dedilhado, pandeiro e flauta. Já o segundo usa um violão folk com cordas de aço e palheta, geralmente uma flauta diferente daquela que conhecemos nas rodas de choro (a irish flute) e, como percussão, o bodhran (sobre o qual se pode encontrar uma ótima matéria aqui em nosso site).


Pois eu digo o seguinte: não existem provas documentadas sobre essa relação mas as duas culturas utilizam alguns elementos musicais em comum em suas composições e estes elementos permitem que o músico transite de um estilo ao outro com facilidade até mesmo misturando temas de um e de outro de maneira orgânica e sem causar quebras bruscas na composição. Vejamos a seguir.


Na música é muito comum o uso de algumas escalas musicais que têm como origem os modos gregos que são: Jônico, Dórico, Frígio, Lídio, Mixolídio, Eólio e Lócrio. Cada um destes com características individuais e os mais usados na música irlandesa são os modos jônico, dórico, mixolídio e eólio.

O modo dórico, por conta de sua estrutura, é usado para músicas de tonalidades menores, enquanto que o mixolídio, é tocado como um modo maior, também por conta de sua estrutura. Isso não exclui o uso das escalas maiores e menores que também aparecem com muita frequência na música irlandesa.


A mesma coisa acontece com alguns ritmos nordestinos. Eles usam exatamente os mesmos modos e da mesma maneira: o modo dórico, sendo o modo menor e o mixolídio, maior. Como exemplos de tunes irlandesas que usem o modo mixolídio, temos “The Old Bush” um tema tradicional e “Pressed for Time” de Gordon Duncan e como exemplos de baiões (estilos nordestinos) temos “O Baião” de Luiz Gonzaga e “Eu Só quero um Xodó” de Dominguinhos.


Mas além do paralelo melódico, também temos um paralelo de ritmo com um outro estilo que é o forró. Em termos melódicos o forró também faz uso do modo mixolídio mas a rítmica desenvolvida é muito parecida com o ritmo irlandês chamado reel que consiste em uma marcação binária, ou seja, uma contagem de dois em dois tempos, com cada tempo subdividido em 4 partes e com uma acentuação nos contratempos enquanto o forró também consiste em uma divisão binária com a mesma subdivisão do reel, mas não possui a acentuação que o reel possui. Mesmo não tendo a mesma acentuação, só o fato de ter a mesma divisão e subdivisão já permite que se possa haver uma troca entre os dois estilos como no exemplo da “Snow Set”, um set de música irlandesa feito pelo grupo Harmundi no qual a segunda tune é o reel irlandês “Fremont Center” de composição da fiddler Liz Carroll (já citado anteriormente) e, logo em seguida, o forró “Presepada”, composição do grupo SaGrama.


O ponto que une tudo o que foi dito até agora é que a tune “Fremont Center” é um reel irlandês tocado em Lá mixolídio e a “Presepada” é um forró brasileiro tocado, excepcionalmente neste set, em ré mixolídio (a composição original é em Dó mixolídio), ou seja, uma boa conversa entre Irlanda e Brasil.


O fato de podermos colocar os dois temas juntos praticamente sem nenhuma adaptação (um ouvinte que desconhece a ambos pode achar que são partes diferentes da mesma música) mostra a possibilidade de um diálogo fluido porque a estrutura rítmica é muito parecida (não igual) e, apesar de um ser e lá e o outro em ré, ambos são mixolídios.


Outra questão interessante é a influência da música galega em nossos ritmos, mas isso fica pra outra matéria. Por aqui eu deixo vocês com essa entrevista de Carlos Nuñes, um importante gaiteiro galego, no programa da Ana Maria Braga que fala um pouco sobre essa relação.


Espero que gostem e até a próxima.





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