The Bothy Band - Os Eternos

Às vezes nós queremos que nossos projetos durem para sempre e tentamos de tudo para que isso aconteça. Mas o fato é que, mesmo durando pouco, alguns projetos e iniciativas têm o poder de alcançar muitas gerações adiante do seu tempo. Minha leiga opinião é que quando permitimos que algo seja “eterno, enquanto durar” (Vinícius de Moraes) isso acaba durando eternamente nas mentes e corações das pessoas.


É o caso dessa aclamada banda irlandesa que começou em 1975 e terminou em 1979. Lendo essas datas é bem fácil de pensar “nossa! Quase nada”. E de fato, o tempo é pouco, mas o alcance, a produção e a influência são altos.


The Bothy Band foi formada por Dónal Lunny, bouzouki, em 1975. Nesta época ele tinha acabado de deixar uma outra banda famosa, o Planxty, para montar sua própria gravadora, a Mulligan. Convidou o flautista e piper, Paddy Keenan, Matt Molloy, flautista e whistler, o fiddler Paddy Glackin e o acordeonista (falecido recentemente) Tony MacMahon para começarem esse projeto inicial para sua gravadora. Logo se juntaram também os irmãos Mícheál Ó Domhnaill, violão, e Tríona Ní Dhomhnaill, voz e clavinete. A princípio o nome do grupo era Seachtar (sete em irlandês, pois eram sete músicos) mas logo em seguida Tony MacMahon deixou o grupo para trabalhar como produtor da BBC, assim sendo, Mícheál Ó Domhnaill sugeriu um novo nome: The Bothy Band, pois refere-se aos imigrantes irlandeses que trabalharam na Inglaterra e Escócia e eram alojados em cabanas de pedra conhecidas como “Bothies”. E assim foi! “The Bothy Band” fez sua estreia em 2 de fevereiro de 1975 no Trinity College, Dublin.


A trajetória da banda é simples: o primeiro álbum homônimo foi gravado em 1975; o segundo, chamado “Old Hag You Have Killed Me”, em 1976; e o terceiro e último em estúdio, “Out of the Wind - Into the Sun”, em 1977. Por último um álbum ao vivo em Paris chamado “After Hours” em 1979, o ano em que a banda acabou. Todos estes com a Mulligans Records.


O que se lê nas diversas fontes é que os shows eram inesquecíveis. Uma carga de energia incrível que levou inclusive Bob Dylan, Paul Simon e Emmylou Harris a declararem-se fãs firmes do grupo.


Creio que o arsenal de melódicos era um bom carro chefe pois se pararmos para pensar, eles tinham nada mais, nada menos que Matt Molloy nas flautas, algumas fontes descrevem como “as musculosas flautas de Matt Molloy” (leiam a matéria sobre ele e sua importância para a técnica de flauta irlandesa aqui n’O Pint), Paddy Keenan alternando entre piper e flautas e, por um bom tempo, Tommy Peoples (primeiro álbum), um baita fiddler, sendo substituído pelo Kevin Burke (segundo e terceiro álbuns) que é outro fervoroso do violino. Aqui n’O Pint Diário nós já comentamos algumas vezes em textos e lives o quanto a melodia é importante na música irlandesa. É ela quem manda na música enquanto o acompanhamento só faz aquilo que a melodia permite que ela faça. Por isso, a importância de olharmos bem para os músicos que fazem a melodia nas irish bands.


Sendo assim, já temos aqui um primeiro ponto interessante para entendermos como uma banda que teve de 4 a 5 anos de duração, são uma referência tão grande de música tradicional. Pois os músicos que tocavam a melodia eram (e são) extremamente do meio tradicional do estilo.


Mas também não podemos deixar de falar sobre a maravilhosa Tríona Ní Dhomhnaill. Além de ser uma cantora incrível que mostra em sua forma de cantar os ornamentos irlandeses, é bem interessante saber de onde vem seu repertório. Pois bem, parte considerável de suas músicas vem de sua tia Neilli Ni Dhomhnaill. E isso é interessante porque mostra que é um repertório passado de geração para geração. Ou seja, mantém a essência da música irlandesa que é a tradição oral passada de pais para filhos. Tia para sobrinha, neste caso.


Não posso deixar de falar um pouco sobre a linha de acompanhamento de Dónal Lunny com seu bouzouki e Mícheál Ó Domhnaill, no violão. Pessoalmente, acho bastante difícil coordenar dois instrumentos harmônicos em uma mesma música, especialmente na música irlandesa onde a harmonia é mais livre mesmo e acho que esse é um primeiro ponto que já mostra a musicalidade nas veias: eles fazem isso juntos, tocando os mesmos acordes. Além disso, como dizem algumas fontes, eles fundem uma técnica de bouzouki de serra de metal com ataques rítmicos fervorosos do violão, misturados com um contraponto bem feito e na hora certa. Aqui eu indico o set “The Pipe on the Hob/ The Hag at the Churn” do álbum “After Hours” em que o violão faz algumas baixarias e o bouzouki uma harmonia bem rítmica. Eles fazem um diálogo excelente e muito bem colocado.



Resumindo, um trio de melódicos com uma excelente técnica tradicional, um repertório que vêm de gerações antigas e uma ala de harmonia que sustenta a melodia mantendo-se sempre juntos e conversando, e assim temos uma banda que criou tradição, virou referência e perdura até mesmos nos corações de quem nunca os viu ao vivo juntos.


Capa do segundo álbum da banda


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