Você precisa ser irlandês para fazer Dança Irlandesa?


Photo by Cia. Celta Brasil

Você precisa ser irlandês para fazer Dança Irlandesa? Para a pesquisadora doutora Catherine Foley, a resposta é muito simples, mas o caminho até essa resposta, nem tanto.


O Step Dancing (uma das formas de Dança Irlandesa) é uma ferramenta poderosa que incita importantes questões sobre cultura e identidade através dos corpos daqueles que a dançam.

Tendo isso em mente, Dr Foley lança uma série de perguntas interessantes que vão nos conduzir à compreensão de quem está habilitado ou não, a praticar a dança irlandesa.

Quando vemos alguém dançando, podemos nos perguntar: O que significa essa dança? O que significa para quem está dançando e o que significa para quem está assistindo? Qual o sentido para quem já conhece muito sobre ela, e qual o sentido para quem não conhece?

De que tipo de identidade estamos falando quando analisamos uma dança? O que tem a ver com auto-identidade, com identidade local, com identidade regional, com identidade comunitária, nacional ou até global? O que queremos dizer quando falamos de identidade quando dançamos ou vemos uma dança?


E para ampliar ainda mais a discussão: O que significa para as pessoas quando elas tomam parte numa prática de dança com outras pessoas? O que nós compartilhamos e o que não compartilhamos? E como podemos nos identificar dentro de um grupo que tem seu próprio habitat? Como a dança influencia nosso próprio entendimento de estar no mundo? Como ela modela nosso entendimento de estar no mundo?


Para Foley, o ponto de partida de tudo é de que para além das teorias, é fundamental levar em conta que produzimos conhecimento através dos nossos corpos. O corpo é socialmente e culturalmente construído e é através do corpo que experienciamos a cultura e a realidade. O corpo é, então, campo de percepção e de prática, e é objeto e agente ao mesmo tempo. É ele quem nos permite sentir, então é ele que permite sentidos.


Outra consideração relevante é a importância do processo de colonização e do nacionalismo na Irlanda. Por muito tempo a Gaelic League (organização fundada em 1893) foi quem decidiu o que era ser irlandês e o que era a cultura irlandesa, num esforço de “desanglicanizar” o país e estabelecer a Irlanda como culturalmente diferente da Inglaterra. Tanto que a noção de “Dança Irlandesa” só surgiu com a própria Gaelic League. Em entrevista com os dançarinos mais velhos de comunidades locais, durante suas pesquisas na década de 80, Dr. Foley notou que estes não chamavam o que faziam de Dança Irlandesa, chamavam de dança tradicional ou simplesmente de dança, porque era a única que eles conheciam. Eles não escolhiam entre ballet, dança contemporânea ou sapateado: aquela dança era tudo o que eles conheciam: era a dança deles.


Na década de 90, surge o Riverdance, um grupo de dançarinos que foi reunido para fazer uma intervenção durante o intervalo do festival Eurovision que em 1994 foi realizado na Irlanda. Este grupo, alguns meses depois, estrelou um espetáculo completo que se tornou um fenômeno mundial. Essa nova forma de fazer e perceber a Dança Irlandesa, teve possibilidade de se configurar desse jeito novo devido ao contexto da globalização e da mercantilização, que se solidificavam nas relações entre os países do mundo. Esse contexto afetou fortemente o significado da dança tradicional na Irlanda.


Num momento em que o mundo ainda enxergava a Irlanda e a Inglaterra como uma coisa só, o Riverdance fez com que as pessoas passassem a reconhecer a dança, e através da dança, reconhecerem a cultura. E essa propaganda internacional atraiu pessoas de fora da Irlanda que iam até o país, curiosas para aprender mais sobre o que tinham visto em vídeos, pela TV ou em shows das turnês internacionais do Riverdance. Dessa forma, pessoas com corpos e culturas diferentes passaram a se interessar em apreciar, consumir, experimentar e aprender a Dança Irlandesa.


E aí surgem novas perguntas: A dança irlandesa deixa, em algum momento, de ser irlandesa? Quando ainda é irlandesa? Qual a importância de ser vista como irlandesa? Para muitos dançarinos reconhecidíssimos, não importa que seja categorizada como irlandesa - ou seja, como patrimônio cultural de um povo específico - eles se identificam como dançarinos, e são apaixonados pela dança em si, pela sua potência e seus desafios. Portanto, se vinculando em maior ou menor grau com a cultura berço dessa tradição, eles são simplesmente Irish Dancers, foram treinados como Irish Dancers, usam isso como plataforma e avançam com isso para todas as direções que eles desejarem, porque é isso que realmente importa para eles.


A Foley, muito assertivamente, pontua também que não existe e nunca existiu uma cultura puramente irlandesa. A Irlanda sempre fez parte de um encontro de culturas. Sempre existiram pessoas chegando, saindo e voltando para a Irlanda. O Riverdance, por exemplo, tão icônico e marcante para a história da dança na Irlanda, foi coreografado por dois estadunidenses e com trilha sonora marcada por influências búlgaras.


Então, ao final dessa jornada, como Foley responde à pergunta: você precisa ser irlandês para fazer Dança Irlandesa? Em uma única palavra: não!


A dança é um sistema, é uma prática que está aí, aberta para qualquer um que tenha o desejo de dançar particularmente dessa forma. Ela é uma celebração da vivacidade dos corpos e da cultura. Vamos dançar?





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