Crônicas de Session: Karatê, Drag Queen e a ginecologista


Photo by Sandro Henrique Bueno

Quando comecei a tocar música tradicional Irlandesa ouvi muito a seguinte frase “A Irlanda é um país super musical!” vinda de várias pessoas diferentes que já estiveram na terra esmeralda. Nunca tive dúvida disso, mas foi só aqui que eu entendi o real significado. Ainda mais vivendo em Galway, que é uma cidade “grande” para os padrões irlandeses (é a quarta maior cidade da ilha), porém minúscula para alguém que veio do Brasil…ou melhor ainda, da monstruosa cidade de São Paulo. O fato é que andando pela parte central da cidade você certamente vai trombar com algum conhecido, não importa a circunstância. Além disso, Galway é uma cidade que tem muitas sessions em diversos pubs, e com isso acabamos conhecendo mais gente.


Acontece que nem todos os músicos locais, aliás, diria que a grande maioria não trabalha com música - apesar da qualidade e linguagem na qual essas pessoas apresentam tocando. Esse pessoal normalmente vai às session com um propósito mais social, de lazer, ou até mesmo para um momento “meditativo” (como diz Leonardo Ramos neste artigo!). Vários destes músicos que você vê na roda da session com seus banjos, fiddles, flautas e bodhráns muitas vezes trabalham em fábricas, cafeterias, lojas, consultórios médicos e fazendas. O não trabalhar com música nestes casos não é por falta de oportunidade, necessariamente… Mas sim porque escolheram trabalhar em outros ramos, até porque Galway é uma grande comunidade e parece que todos colaboram com suas diversas funções. Porém a música é grande parte da vida…. Quase que como comer e beber água. É algo necessário. Não é à toa que o símbolo nacional é uma harpa.


A primeira vez que me dei conta disso foi quando um amigo banjoísta, frequentador de várias sessions da cidade, disse que viu um vídeo meu tocando flamenco e que o dançarino do grupo trabalhava na fábrica com ele. Achei aquilo muito curioso…dois artistas distintos que se conheciam e trabalhavam em um setor totalmente diferente da arte.


Quando cheguei em Galway e fui explorar a shop street (calçadão principal onde todos os artistas de rua estão) pela primeira vez, vi dois senhores tocando bodhrán e bouzouki enquanto um jovem rapaz de boina e colete dançava séan-nós e brush dance, um dos estilos mais tradicionais de dança da região. Depois o vi dançando mais algumas vezes nas sessions do Tigh Choilí, até que em uma das noites aleatórias de Galway acabamos tomando alguns pints juntos e descobri que além de ser um grande sean-nós dancer ele também é Tina D. Parton, uma das maiores Drag Queens da Irlanda!


Há um tempo atrás procurando por aulas de artes marciais, trombamos em um site de Karatê em Galway. Navegando pelas páginas achamos os professores, e para o meu grande espanto dois dos instrutores mais destacados eram os hosts das sessions de sábado no Crane, um dos pubs mais tradicionais e populares de Galway e da Irlanda. Ele toca violão e tem um repertório imenso de Irish songs, e ela é uma acordeonista fantástica. Ambos instrutores de karatê!


Outra situação curiosa, saindo um pouco do mundo tradicional, foi quando meu marido descobriu que seu professor de canto lírico, que é jovem e um grande tenor com uma formação toda clássica, também é fazendeiro lá na sua cidadezinha em County Clare. Fazendeiro raiz! Aquele que acorda de madrugada para cuidar das vacas. Ainda assim, ele é dono de uma escola de música, é cantor lírico e regente de corais.


Mas o auge dessas coincidências aconteceu a algumas semanas atrás quando estava na clínica ginecológica fazendo um tratamento. Pois, estava eu naquela posição desconfortável me preparando para começar a procedimento, quando a enfermeira começou a puxar papo comigo. Acredito que para me distrair e deixar o momento um pouco mais leve. Me perguntou a quanto tempo eu estava na Irlanda e mencionei que sou musicista e que também dou aulas de música, especificamente de flauta transversal. Até ela me dizer - “Ah! Eu também toco música tradicional irlandesa e sou flautista! Mas costumo tocar na flauta transversal clássica, não a Irish Flute de madeira” - O que é exatamente o que eu mais faço! Aí o assunto foi longe… ficamos trocando dicas de como usar as chaves para ornamentar, artistas e álbuns preferidos, o melhor modo de fazer “rolls” nesse tipo de flauta e como tirar sons limpos na terceira oitava. Tudo isso enquanto eu estava ali sendo examinada e tomando anestesia local. Se tudo isso foi para me distrair, essa enfermeira acertou na mosca.


Tá aí uma coisa que nunca tinha imaginado - falar de trad em uma consulta no ginecologista.


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