Crônicas de session: O relato de uma chegada em grande


Emigrar não é fácil, nunca foi. Em 2016 eu fiz o caminho contrário ao que meus avós fizeram quando foram de Portugal para o Brasil e lá vivi pouco mais de 5 anos, até que decidi emigrar outra vez, como se já não bastasse uma. Depois de meses de preparação, no começo do mês de Abril de 2022, eu embarquei num pequeno navio, com meu carro, mala e cuia (na verdade ele estava abarrotado de coisas até o teto) com destino a querida Ilha Esmeralda.

Uma das coisas que eu fiz nos 4 dias de viajem foi pedir aos Céus que me guiassem no caminho das coisas que me trariam felicidade.

Cheguei em uma segunda-feira bastante nublada, o que é bastante comum por aqui, e a primeira coisa que fiz foi encontrar com meus queridos amigos aqui d’O Pint Diário. A Mila estava tocando com o César no Monroe’s Tavern naquela noite e o Leo e a Paula foram assistir. A alegria de revê-los pessoalmente depois de tanto tempo foi enorme!

Durante a primeira semana, o Leo que é um frequentador assíduo das sessions de Galway, me falou que haveria session na sexta-feira naquele mesmo pub.

Aquela sexta-feira estava morosa e sonolenta e eu estava considerando não ir, mas um sopro de animação veio e fomos juntos, eu e a Mila, sem instrumentos, só pra assistir. Seria a primeira session desde a minha chegada.

Ao entrar no Pub, session já rolando, encontro já de cara o Leo, com sua indefectível flauta em riste. Também encontrei outra pessoa, uma violinista americana que vive em Galway chamada Kara, nos conhecemos em uma session muito boa no Porto uns meses antes. Trocamos umas palavras e eu voltei a falar com o Leo que com os olhos estatelados e a cara mais branca que o habitual me disse: “Você já reparou quem é que está ali sentado no balcão de bonezinho só curtindo a session?”, eu respondi “não, não reparei!”, obviamente eu não tinha reparado porque eu sou um zero à esquerda no quesito reparar em pessoas, ele disse “então repare!!”. Curioso, olhei pra trás e vi o homem lá sentado, com o pint do lado e o bonezinho na cabeça, mas confesso que com o barulho das luzes, não o reconheci. Virei-me outra vez para o Leo com cara de ‘ué?’ ao que ele me diz em tom de revelação: “O McGoldrick!”


QUE? O McGoldrick?! O Michael McGoldrick mesmo em pessoa?!?!



A Mila foi logo buscar um pint só pra esbarrar nele e fazer a irlandesa comentando sobre o tempo, vai que um pouco da musicalidade pega por proximidade.

Eu peguei o meu pint também, arranjamos uma mesa e nos sentamos os quatro, a Paula também estava, para brindar àquele encontro em um dia ensolarado.

A session contava com uma uilleann pipe, um acordeão de botões, um violão, um bandolim, uma whistle, uma flauta e três fiddles. Um dos fiddlers, além da Kara que eu já mencionei, não me pareceu estranho, ele tinha uma sonoridade que eu conhecia bem. Em comentário com a Mila, ela disse: “é Seán Smyth, do Lunasa!”


QUE?!?! O Seán Smyth?!?!



Estávamos extasiados!


Obviamente os grandes se conhecem e eventualmente o Seán se levantou e foi bater um papo com o McGoldrick, que instantes depois se juntou à session, no que até o momento foi a melhor session que eu já tinha assistido. Pense em um arrependimento de ter deixado o bodhrán em casa! Mas esse arrependimento ainda assim era menor do que a animação em estar diante desses que fazem parte da minha formação como músico. Não podia ser melhor,


Mas foi!


Entra porta adentro a simpaticíssima e ultra-sorridente Sharon Shannon!

Era demais pra ser verdade!



Entendi esse acontecido, logo na minha primeira session, como um sinal do Universo dizendo que eu estava no caminho certo.


Houve também uma curiosa e engraçada aleatoriedade nesse dia. Um maravilhoso grupo de amigas em uma despedida de solteira que passou pelo pub, todas vestidas de ginastas dos anos 80 e a noiva carregando uma boneca inflável.

Eu poderia dizer que uma das coisas era verdade e a outra mentira, só pra vocês ficarem com a pulga atrás da orelha, mas não minha gente, aconteceu isso tudo mesmo!




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