Danças Irlandesas: Tradição inventada


Cullinane Archive Collection/CLRG

O século XIX testemunhou uma enorme mudança no repertório das danças tradicionais na Irlanda. A tradição viva absorveu novas formas, vindas de outros países da Europa, e fez delas algo distintamente irlandês, adaptando-as para músicas irlandesas e adicionando passos de danças irlandesas já conhecidos dentro da estrutura dessas novas danças.

Mas na virada do século, os irlandeses, em busca de uma identidade, passaram a questionar seus valores e a tentar identificar quais influências atuavam nas suas manifestações culturais e na sociedade em geral.


É importante contextualizar aqui que essa discussão tem a ver com o fato de que a Irlanda sobrevivia a um longuíssimo período de mais de 800 anos de colonização inglesa, que legava uma grande herança cultural aos irlandeses.

Houve então, por muitos anos, um debate sobre algumas formas de dança serem banidas ou não, por serem estrangeiras. Nessa época, imperou o julgamento do que seria aceitável ou não como prática cultural patriótica. O que orientava essa classificação era uma visão idealizada do que seria “preservar” uma também idealizada tradição.


Deste modo, começa-se a “inventar” uma tradição, selecionando as partes da cultura que deveriam ser incentivadas e oficialmente aceitas. O pretexto do discurso é que alguns aspectos da cultura eram mais genuínos do que outros, mas mais importante do que isso, que esses aspectos cuidadosamente selecionados deveriam ser capazes de traduzir e propagandear uma imagem desejada para o povo irlandês, de acordo com o que a elite nacionalista desejava e imaginava que fosse.

Selo comemorativo de 100 anos da Gaelic League

Foi nesse esforço de diferenciar o que era “estrangeiro” do que era “nativo” que fundou-se, em 1929, a Comissão de Dança Irlandesa (An Coimisiún le Rincí Gaelacha), braço da Liga Gaélica (Gaelic League de 1893) que era responsável especificamente por regulamentar, organizar e controlar a dança da Irlanda.


Dentro deste propósito, muitas danças irlandesas foram marginalizadas, desencorajadas, desarticuladas e inviabilizadas, o que levou inclusive à extinção de algumas formas de danças, já que não passavam a imagem idealizada e desejada do que deveria representar o povo e a cultura irlandesa. Dessa forma, em uma decisão política, a Comissão de Dança Irlandesa estabeleceu que a partir daquele momento, a Step Dance (estruturada em um rígido sistema de competições) e a Céilí Dance constituiriam propriamente “a” Dança Irlandesa.

Em entrevista a uma rádio local, Tomás Ó Faircheallaigh, editor de Ár Ríncí Foirne, um manual que listava e explicava em detalhes como se dançar determinadas coreografias de Céilí de 1943, disse:

“A moda na dança é tão suscetível às noções do politicamente correto quanto qualquer outro aspecto da cultura popular” (BRENNAN, Helen. The Story of Irish Dance, 2001).

Essa lúcida compreensão de que a dança é um reflexo natural das relações sociais pode ser aplicada igualmente no sentido reverso, ou seja, ao se manipular a forma e o contexto de dançar, são produzidos certos reflexos desejados na sociedade


O gênio irlandês Oscar Wilde já dizia que “a vida imita a arte mais do que a arte imita a vida”, e a elite política da época evocou essa máxima ao investir tanto na invenção de uma tradição na dança. Mas hoje os tempos são outros, e o que vemos é muito mais respeito à diversidade de estilos e uma maior valorização de manifestações outrora depreciadas.

Viva a diversidade das danças Irlandesas!


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