Derek Bell: Tradicional Fora Da Caixinha

Atualizado: 15 de dez. de 2021

É costume dos lendários Chieftains encerrar alguns de seus shows com um medley comprido alternando alguma tune com solos de cada um de seus músicos - uma prática que, nas sessions de São Paulo, apelidamos de "around the house" (daí o nome da série de entrevistas d'O Pint Diário). O primeiro contato que tive com esse cânone Chieftânico foi por causa da faixa "Give The Fiddler A Dram", que ocupa pouco mais de 10 minutos do álbum Down The Old Plank Road:



O álbum em si é um bom demonstrativo da versatilidade musical do supergrupo, nesse caso esbanjando fluência em estilos instrumentais americanos como o bluegrass - claro, sempre homonegeamente fundido com a música tradicional irlandesa que eles praticamente fundaram ao lado de outros titãs da segunda metade do século XX. Mas um desses solos chama a atenção por levar o jogo das referências musicais a um patamar realmente inusitado, mesmo (inclusive) para os padrões dos Chieftains. Refiro-me, claro, à demonstração de virtuosismo de Derek Bell, pianista que dá um show próprio de ragtime em pleno around the house irlandês.



Não é necessário sermos nem razoavelmente versados na Irish music para inferir que o sujeito que fez esse solo está tão fora da caixinha que a caixinha chega a parecer um pontinho distante na sua perspectiva. Esse pensamento me encheu de curiosidade há muitos anos atrás, quando, muito por acaso, trombei com essa faixa em minhas primeiras incursões internéticas em busca de bandas irlandesas para ouvir. Eu mesmo aspirante a pianista que era, na época, vi no mestre Bell um dos poucos exemplos de piano bem empregado na música irlandesa, criativo para muito além do velho "1 - 5 - 1 - 5 - 1 - 5" que tão comumente tenta pianistas mundo afora, dada a incrível dificuldade que é adequar esse instrumento a um conjunto de Irish music.


George Derek Fleetwood Bell não era apenas pianista. Músico virtuoso desde a infância, tendo composto sua primeira sonata aos 12 anos, ele tocava harpa, dulcimer, cravo, heckelfone, trompa, órgão, uma porção de oboés diferentes e música erudita. Seu álbum "Plays With Himself", de 1980, é um bom exemplo de suas origens na música clássica, repleto de belíssimas composições próprias que já demonstram essa habilidade incrível que ele tinha de se equilibrar na fina e bamba corda que separa o tradicional do inovador. Conta-se que seus estudos musicais decorreram de um diagnóstico de infância que previu uma cegueira que nunca aconteceu. Ele se formou no Royal College Of Music de Londres, onde, aliás, ficou amigo do famoso flautista irlandês James Galway. Ao contrário deste, porém, ele foi capaz de transcender suas raízes eruditas e transitar para a linguagem da música irlandesa. Ele aprendeu a tocar harpa quando administrava a Orquestra Sinfônica de Belfast, e passou por muitos tipos diferentes delas antes de chegar aos Chieftains.


Derek Bell é parcialmente responsável pela redescoberta moderna das composições de Turlough O'Carolan, um harpista cego do século XVIII, cujas composições (como a famosa O'Carolan's Welcome) são tocadas até hoje em shows e sessions de música tradicional irlandesa, apesar da natureza mais erudita do compositor - na verdade, reza a lenda que alguns críticos consideravam O'Carolan muito moderno para o seu tempo. Muito fora da caixinha, talvez. Tão fora da caixinha que chega a ser difícil classificá-lo como isso ou aquilo. Pergunto-me o quanto não deve ter ressoado a personalidade musical dele com a de Derek Bell. De qualquer maneira, hoje em dia as composições de O'Carolan são bastante populares, principalmente entre harpistas irlandeses – e Bell mesmo gravou dois álbuns dedicados ao compositor: "Carolan's Receipt" (1975) e "Carolan's Favourite" (1979). Foi por causa da harpa e da sua pesquisa O'Carolânica que ele acabou se aparceirando de Paddy Moloney, líder dos Chieftains, e integrando a banda a partir de 1975. Na verdade, de acordo com Moloney, ele nunca chegou a se juntar formalmente aos Chietftains: apenas começou a tocar junto ao grupo e nunca parou. Apesar de tentar reter, paralelamente, seu cargo na orquestra da BBC, ele parece ter favorecido o grupo irlandês – aliás, consta que o administrador daquela orquestra chegou a clamar-lhe por juízo, perguntando-lhe quando iria largar aquele "grupo folk esfarrapado". Na entrevista abaixo, mestre Bell conta essa história com o bom humor que lhe era reconhecidamente característico, e fala um pouco de como conheceu os Chieftains:



Ora, aquele "grupo folk esfarrapado" acabou reconhecido por outro gênio artístico, o diretor cinematográfico Stanley Kubrick, que contratou is Chieftains para integrar a trilha musical do épico Barry Lyndon, já contando com a participação do harpista/pianista. Bell, ao lado de Moloney, tornou-se um dos membros mais constantes dos Chieftains e ressoava poderosamente a inclinação daquele pelas experimentações com estilos diferentes e convidados ecléticos, como Van Morrison, Sting e The Rolling Stones.



Derek Bell era o único membro dos Chieftains que usava gravata nas apresentações - e tinha o hábito de combiná-las com meias decoradas com desenhos dos Looney Tunes, ou de outras figuras, digamos, contrastantes. Conta-se que uma vez ele foi apreendido no aeroporto pela polícia soviética, durante uma turnê, por suspeita de carregar uma arma escondida. Que, na verdade, tratava-se de um relógio despertador que ele trouxera consigo, na pressa de não perder o vôo. Um certo vídeo que achei no YouTube mostra cenas do compositor criando e escrevendo um acompanhamento de harpa para uma performance de cantos guturais da Mongólia. Ele tinha sete gatos e chegou a sugerir para a rainha Elizabeth II que eles dessem um saudável rolê com os corgis dela, no jardim da Rainha. Norte-irlandês que era, ele foi criado protestante, mas acabou convertendo-se ao budismo, e gravou dois álbuns (Mystic Harp, volumes I e II) em homenagem à música que conheceu por conta desse interesse na cultura oriental - quiçá fazendo dele, inclusive, precursor do posterior desvio que a música celta sofreu em direção ao New Age. Tudo isso para ressaltar que o gênio musical de mestre Bell era acompanhado (se não decorrente) de uma personalidade bastante suis generis - algo que eu diria bastante típico de artistas do seu calibre. Paddy Moloney, que o chamava de "ding dong Bell", disse que ele era famoso por seu humor, por tirar onda dos outros, um homem jamais sério. Ele via o mundo de uma maneira própria, e teve a bondade de compartilhar conosco um pouco dessa visão, para que nós, meros mortais, não nos acabemos na mesmice de um mar de narrativas que se repetem, variações do mesmo tema, ad nauseam, geração após geração. É graças a mentes como a de Derek Bell que o universo humano constantemente se renova e se alivia da segurança daquilo que já é comum. Veja bem, Derek Bell não deixou de ficar conhecido por integrar uma das bandas que mais imprimiram a respeitosa marca de "tradição" no que hoje chamamos música tradicional irlandesa - mas ele fez isso sem deixar de ponderar e questionar o que mais se pode fazer com uma gramática uma vez que ela foi bem absorvida e bem aprendida. Se hoje os músicos irlandeses bebem da fonte de O'Carolan, que no seu tempo acabou amplamente esquecido, desejo que os pianistas do mundo globalizado continuem a redescobrir o trabalho fantástico que esse senhor nos deixou, e que esse trabalho continue inspirando novas tentativas arriscadas e inovadoras Irish music afora.




Derek Bell faleceu em 2002 e foi homenageado por um belíssimo show dos Chieftains que se eternizou no álbum "Live From Dublin - A Tribute To Derek Bell". Seu funeral foi atendido por músicos como Ronnie Drew (Dubliners) e Loreena McKennitt. Homenagens foram proferidas por personalidades como Van Morrison, Joni Mitchell e Diane Krall.




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