• Leonardo Ramos

Irish Stew Of Sindidun: Irish Punk Com Algo A Mais

Aqueles minimamente familiarizados com o Irish punk (a afortunada prole do casamento da música tradicional irlandesa com o punk rock) já ouviu, decerto, os clássicos Flogging Mollys e Dropkick Murphys da vida – bandas que, por sua excelência musical e performática, conseguiram contrabandear o som das tin whistles para dentro da mais desavisada festa de St. Patrick's Day, nos cantos mais inesperados do mundo. Ouça eles demais, porém, e a música pode começar a se achatar numa "mesmice" que talvez provoque a curiosidade de buscar alguma divergência da norma do gênero. Ei, nada contra aquela IPA amargona martelando nossas papilas gustativas, mas de vez em quando o paladar também se beneficia de uma witbier, ainda que só pelo contraste. Eu mesmo, tendo ouvido "Johnny I Hardly Knew Ya" um pouco além da conta, encontrei uma lufada de ar fresco na criatividade do som de uma banda chamada Irish Stew Of Sindidun.



A banda é de Belgrado, na Sérvia, que aparentemente tem sido terreno fértil para uma formidável proliferação de bandas de música irlandesa e Irish punk. Sem abandonar a guitarra elétrica (Ivan Đurić), baixo (Aleksandar Gospodinov) e bateria (Marko Jovanović) que são a fundação de tudo o que se pretende roquenrou nesses tempos, o Irish Stew Of Sindidun parece ter uma mão (relativamente) mais leve nas batidas e distorções e acrescenta à formação um violão acústico (Nenad Gavrilov), tin whistle (Bojan Petrović), banjo (Ivan Đurić) e fiddle (Ana Đokić Brusić) e um vocal limpíssimo (Bojan Petrović) e por vezes harmonizado (Nenad Gavrilov). Há algo de folk que fala mais alto: não falo apenas do vocal limpo, mas também aquela emoção ao mesmo tempo sutil e épica que escorre pela melodia irlandesa e parece falar uma verdade especialmente genuína. Sem dúvidas, é um som que se destaca.


A banda bebeu da fonte dos Pogues, pioneiros do Irish punk, e começaram a carreira fazendo seus competentes covers de canções pogueanas e outras ainda do repertório tradicional irlandês – mas já no primeiro álbum temos uma amostra notável da criatividade e do estilo cativante que são marcas do Irish Stew: com 9 faixas originais, So Many Words foi sucesso instantâneo no mercado sérvio. Dare To Dream, o segundo álbum da banda, não fica atrás do primeiro de forma alguma, mas faço questão de menção especial ao terceiro álbum, New Tomorrow. Com a adição dos atuais baterista e fiddler, este esbanja um som ainda mais maduro e bem lapidado, e uma seqüência particularmente cativante de faixas, a começar pela pérola "Lady Of New Tomorrow":



Em 2017, 6 anos após o lançamento de New Tomorrow, o Irish Stew Of Sindidun lançou seu tão-aguardado quarto álbum: City Of Grigs, o mais bem produzido e, possivelmente, o mais irlandês representante de toda a discografia. Refiro-me não só à sonoridade da banda mas à escolha de faixas, que inclui as tradicionais canções "Step It Out Mary", "Paddy's Lamentation" e "Down By The Glenside". O álbum foi anunciado pelo single "Heavier Than Sin", que logo mostra a que veio a nova produção:



Apesar de demonstrarem um enorme engajamento pessoal na produção dessa música, que claramente é feita com uma paixão ímpar, e apesar também do sucesso que o Irish Stew faz, nem tudo é um mar de rosas para uma banda sérvia de música "alternativa", para usar o termo de uma entrevista que a banda respondeu para o site princip.info. "É possível se viver na Sérvia de música alternativa?" pergunta o entrevistador Ivo Kovačević, ao que o frontman Bojan Petrović responde "É possível, mas a gente tem que viver bem modestamente e não se forçar a alimentar mais bocas, então além da música, todos nós fazemos outras coisas também." Isso foi em 2014, quando a banda ainda estava, discutivelmente, em ascenção. Entretanto, em 2019, a mesma pergunta foi feita, e a resposta não foi muito diferente: "a gente não vive de música, a gente vive para música. Eu posso dizer que sou grato por isso. Para viver decentemente na Sérvia exclusivamente de música, temos que tocar em casamentos, ou ser um músico "freelancer" e tocar o que um gosta hoje e o que outro gosta amanhã. Ou então tocar algo que talvez nem música seja." Não sei vocês, mas algo dessas palavras me pareceram ressoar com a experiência brasileira. Mas, também não diferente do que fazemos por aqui, os membros do Irish Stew Of Sindidun ocupam-se com muita paixão e dedicação de todos os aspectos mais importantes para construir um empreendimento de nicho como esse: "Há um erro no sistema. Dizem que o sistema mais produtivo é aquele em que todos fazem aquilo que sabem melhor. Assim, bandas deveriam estar ocupadas só em fazer músicas e ensaiar instrumentos, e outras pessoas deveriam fazer os trabalhos de marketing, produção, agenciamento. Entretanto, como ainda estamos muito longe de um sistema sério aqui na Sérvia, somos forçados a nos administrar como sabemos e podemos. Nós temos o privilégio de, entre os nossos membros, termos pessoas capazes de assumir todos essas atividades importantes que acompanham, então funcionamos como uma pequena empresa. Infelizmente, a música sofre porque nem tudo que queremos acaba sendo possível, mas o que fazemos é inevitável. Claro, tentamos cooperar uns com os outros o quanto é possível. Algumas pessoas ocasionalmente nos ajudam de diversas maneiras, mas no fim das contas temos que construir a maior parte da história sozinhos mesmo." Perguntado sobre o que diria a bandas iniciantes que queiram seguir os passos do Irish Stew, Petrović disse que "se querem lidar com música porque sentem a necessidade de expressar criativamente, e se esse for o objetivo em si, vão em frente. Estejam prontas para aprender marketing, direitos autorais, administração, além do tocar... Troque experiências com os outros no palco e absorva conhecimento, estejam prontas para lobbies e pedras no caminho, mas de jeito nenhum pare. Com um pouco de sorte, sua música vai ser ouvida, talvez não extensamente, mas o suficiente para que o que você faz faça algum sentido. Em todo caso, trabalho duro, dedicação e, sobretudo, continuidade são essenciais."



Por sinal, o Irish Stew Of Sindidun estará presente em um festival online brasileiro de música folk, celta e derivados no futuro próximo: o Encontro Alcoólico À Distância acontecerá online no dia 23 de outubro de 2021 e contará com a banda sérvia no meio de um line-up quase exclusivamente brasileiro (incluindo Tailten, A Barda, Bando Celta, Harmundi, Brinde À Revolta, Capitain Cornelius, Mare Nostrum e Tandra):



Fica, então, a recomendação para quem busca um Irish punk um pouco fora da caixinha, um som particularmente genuíno e bem feito:



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