• Mila Maia

Lançamentos: "Braia...e o mundo de cá"




“BRAIA - Um diálogo instrumental entre a música brasileira, a tradição irlandesa e o rock progressivo”. Estas são as palavras que se encontram no site da banda, e realmente não tem maneira melhor de descrevê-la. O projeto fundado pelo multi-instrumentista mineiro Bruno Maia começou em 2006, enquanto paralelamente tocava seu outro projeto bem conhecido, Tuatha De Dannan, que também tem grande influência da música celta.

A banda gravou dois álbuns em momentos bem diferentes - o primeiro sendo “Braia… e o mundo de lá”, lançado em 2007 - e o segundo chamado “...e o mundo de cá”, que saiu do forno agora a pouco, lançado em maio de 2021

Escutar Diadorina (faixa do novo álbum) nessa intensa semana de verão aqui na Irlanda (calor é uma coisa bem rara por aqui) foi a trilha sonora perfeita para o momento. A sensação de estar no Brasil pelo calor e pelo sol, mas estando rodeada de gramas verdes, muros de pedra e ovelhas. É exatamente a sensação da mistura rítmica e instrumental que o álbum traz.

Para saber um pouco mais sobre a banda e sobre o novo álbum, convidei o Bruno Maia para contar como foi o processo:



PINT - Bruno, como o Braia começou?


BRUNO - Eu acredito que todas as pessoas que trabalham ou desenvolvem a criatividade são naturalmente inquietas, meio que atiçadas, e provocadas, facilmente pelo invisível, aquela coisa inominável e, comigo num é diferente. Vira e mexe estou criando melodias, temas, ideias musicais ou mesmo algo cinematográfica ou conceitual. Na maior parte das vezes, sem querer, as coisas/ideias simplesmente chegam, como se ganhássemos um presente de uma entidade, algo assim, é o que chamam de inspiração. E lá pra 2006, 2007, eu estava com muita coisa acumulada, muitas ideias, temas e canções prontas pra um trabalho que não poderia desovar no Tuatha. Embora existam as conexões óbvias que podem ligar os trabalhos eu os percebo bem díspares e peculiares e, por isso mesmo, eu senti que tinha em mãos os ingredientes e mesmo a receita pra algo totalmente novo e, por ser novo, não existiam limites, barreiras, rótulos, uma cena ou demanda a atender, nem nada para eu ter de me ater. Era uma experiência nova e livre pra quem sempre tocou em banda (neste caso, no meu, eu fundei o Tuatha com meus 13, 14 anos). Gravei no Brasil, na Irlanda e na Bretanha francesa o disco. Tinha uilleann pipes, fiddles, bouzoukis, guitarra havaiana, muito sintetizador além de uma base bem progressiva ...Sempre tive claro pra mim que por mais que eu respirasse a Irlanda por quase que uma vida inteira e estudasse sua música, sua cultura e tudo mais, eu não sou irlandês e nunca sentirei e nem soarei como um músico de lá, serei sempre um estrangeiro tocando aquele estilo ou lendo aquele povo. Então, uso a latinidade em favor da coisa, o lance da mistura, a conversa entre os mundos. Juntei música celta, MPB, Choro, Clube da Esquina, Psicodelia e Rock Progressivo num disco cantado em português por vocais femininos, um vocal soprano, cantando folk em português- uma piração! Goste vc ou não, era um trem diferente...e foi bem legal, o disco vendeu bem, foi lançado na França, rolaram vários shows que renderam um DVD, mas acabei dando um tempo com o projeto.


PINT - Qual a formação/instrumentação atual da banda?


BRUNO - No Braia sou bem livre pra lançar mão de quer tipo de influência ou ideia e contando o primeiro disco já foram muitos instrumentos e músicos. Chegamos a fazer a turnezinha do primeiro disco com 9 pessoas, era um batalhão (kkkkkk). Mas hoje estamos mais contidos, a formação regular do disco novo contou com 5 músicos: Alex Navar que está no Braia desde a primeira turnê na gaita de fole irlandesa, Rafael Castro nos teclados que tbm está desde o primeiro disco, Fabrício Altino na bateria, Anderson Silvério no baixo e eu, que gravei bouzouki, banjo, viola caipira, tin e low Whistles entre outros. Tivemos alguns violinistas convidados e amigos diversos participando aqui acolá.




PINT - Como foi gravar o segundo álbum após quase 15 anos do lançamento do primeiro disco? Muita coisa mudou de lá pra cá?


BRUNO - Foi fantástico, pois eu pude desgarrar de umas ideias cristalizadas, sabe?! Tipo, meu lado conservador pensava que o Braia só seria possível com a mesma formação, baseado em canções, vocais femininos etc…mas um dia, um amigo me avisou que eu podia fazer o que eu quisesse com o Braia, pois além de ser um projeto meu, tinha até meu nome na coisa( BR de Bruno e AIA de Maia) e que eu devia pegar o meu trabalho instrumental e lançar como Braia mesmo, que eu não lesaria ninguém, etc… Daí eu pensei: “putz, é claro, que bobagem! Vai rolar um Braia despalavrado agora, com outra galera”.

Daí, por conta da pandemia e de termos de ficar muito tempo em casa e sem as atividades típicas de nosso cotidiano (no caso, shows e viagens), pude revisitar este trabalho que iniciamos em 2015. Eu, Alex, Fabrício, Rafael e Anderson. Grande parte do material já estava gravado desde então, alguns detalhes e coisas mais minhas, além de algumas participações, que foram feitas agora, talvez 30% do material. Este foi o único lance positivo da pandemia pra mim, pois juro que este disco é, talvez, o trabalho que mais me realizou artisticamente e por isso, se depender de mim, nunca mais demorarei nem um quinto deste tempo pra lançar o próximo Braia. Na verdade, já quero outro.



PINT - A arte/capa do novo álbum está linda! Quem é o artista e qual a ideia atrás dessa arte?


Bruno - Brigadão. Eu ainda estou em lua de mel com a arte do disco, viu!? O artista é o Carlos Arias, um jovem equatoriano cujo trabalho conheci pelo Facebook, pois ele era fã do Tuatha e me procurou. Eu passei pra ele as ideias, muitas fotos e causos aqui de Minas Gerais e, inclusive uma referência - a capa do disco “Do Corpo à Raiz” do Ivan Vilela. Queria uma imagem que trouxesse o ar misterioso e místico das Minas setecentistas e toda aquela aura épica da corrida do ouro, as montanhas, a Guerra dos Emboabas...e ele fez um trabalho fantástico.


PINT - Qual é o maior desafio na busca de juntar música brasileira com música celta?


BRUNO - Não sei dizer, até porque não tenho tanto estudo formal de música pra elencar teoricamente o que constitui cada um desses mundos. Mas o que sinto é que a música tradicional irlandesa é mais quadrada e previsível que a brasileira, o que não a diminui de forma alguma; na verdade, foi essa ‘irlandesidade’ melódica que me encantou desde a adolescência. Já a música brasileira, por conta do gigantismo territorial do país, é muito, muito rica em ritmos, expressões e harmonias. Existem algumas aproximações às vezes, num fraseado nordestino, armorial com algo céltico e medieval, mais mouro que céltico, na verdade… mas tem hora que os mundos se trombam sim. O que nós tentamos foi não cair no "caricaturismo" barato, no exotismo do que poderia ser a música brasileira pra gringo ver, ou pelo menos, não calcar o disco em um ritmo ou linguagem específica brasileira. Claro que usamos uns tipos de fraseados clássicos de algumas expressões musicais daqui, mas acredito que sem apelar pro super óbvio. Porém, apesar disso tudo que falei, foi tudo muito espontâneo, eu e o Alex já tocamos música irlandesa há muitos anos, o Rafael, tecladista, é um cara muito moderno, do jazz, do progressivo e o Anderson e Fabrício tocam muita black music, coisas "groovadas", música brasileira e fluiu muito legal e naturalmente.


PINT - Quais são os músicos/bandas que mais te inspiram? Tanto na música celta quanto na música brasileira.


BRUNO - Eu sou velho já, então rola um acúmulo muito grande de influências e inspirações bem difusos e múltiplos. Mas pra citar alguns que considero bem importantes, na música irlandesa eu citaria o John Doyle e o Seamus Egan (ambos do Solas), Donal Lunny e Andy Irvine e seus vários projetos ao longo dos anos, o grupo Altan, Danú, o Clannad antigo e o contemporâneo Goitse, acho-os fabulosos. Mas tem coisas demais da ilha esmeralda, e gente da Escócia também, ouvi muito Silly Wizard, Capercaillie, Alasdair Fraser e The Iron Horse. Do lado Brasil, eu sou suspeito pois sou um mineiro muito apaixonado por tudo ligado à mineiridade, e aqui temos Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, Tavinho Moura, o 14 Bis e todo o movimento do Clube da Esquina que me encanta demais, e o Brasil é riquíssimo em sua variedade cultural e musical, né?? Adoro Chico Buarque, João Bosco, Djavan, o Quinteto Armorial, Hermeto Paschoal, os choros antigos, Tião Carreiro, Ivan Vilela e num sei nem citar mais. E tem o rock, minha espinha é Beatles e logo depois Yes.




PINT - Você diria que o processo de criação para o Braia é completamente diferente da Tuatha De Danann?


BRUNO - As interseções destes dois universos, do BRAIA e Tuatha de Danann, são a minha pessoa e a "coisa" celta, e, por algum motivo, pra mim, quando tenho uma ideia ou a recebo eu meio que já sei pra onde encaminhar. Pra mim é muito clara a diferença entre um universo e outro, embora seja possível e até bem vindo cruzar essas fronteiras.




PINT - Quais as novidades para o futuro do Braia? Mesmo com a pandemia no caminho, como estão os planos?


BRUNO - Pois é, com este raio desse Corona na área fica tudo muito difícil, divulgar o disco em shows e tudo mais. O que rola são entrevistas como esta, reviews do disco em jornais, sites, revistas e posso dizer que toda a resposta do público e crítica tem sido muito legal, super positiva. Este disco está circulando num meio diferente também por tratar de questões da história e memória de Minas Gerais o que me deixa bem satisfeito e motivado pra seguir a toada. Já tenho muitas ideias pra um novo trabalho, ta fermentando.











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