• Mila Maia

O respiro musical que Frankie, Mairtín e Johnny trouxeram para Galway

Ficar 14 meses sem tocar ou assistir um show ao vivo é angustiante para músicos e para amantes de música. Ainda mais vivendo em Galway, esta cidade no oeste da Irlanda tão cultural, musical e ativa. A troca de energia que rola no palco e na platéia é algo que não é nada substituível por serviços de Streaming, infelizmente. Pisar em uma casa de shows depois de tanto tempo, ainda mais no Town Hall Theatre, mesmo com muitas restrições e o incômodo da máscara no rosto, foi muito emocionante e renovador. Eu não pensei duas vezes quando vi a divulgação do show de Frankie Gavin (fiddle), Mairtín O’Connor (acordeon de botão) e Johnny Duhan (violão e voz) rolando nas redes sociais e já garanti meus ingressos.


Para quem não conhece - Mairtín O’Connor e Frankie Gavin são dois músicos de Galway excepcionais que tiveram uma grande importância na cena da música irlandesa com a banda De Dannan, na qual falarei mais sobre em matérias futuras!

Haviam pouquíssimos assentos disponíveis… diria cerca de 25 ou 30. E tive a oportunidade de ser colocada na terceira fileira (que convenhamos, é melhor que a primeira e a segunda para uma pessoa baixinha como eu). Fiquei esperando o show começar muito tranquilamente, ao som de Lúnasa nas caixas de som do teatro, pensando qual seria o repertório que eles iriam apresentar.


Poucos minutos depois, os três entram no palco e se posicionam com seus instrumentos. São músicos extremamente experientes, mas senti que talvez houvesse um nervosismo por estarem em um palco depois de tanto tempo parados. Depois foram se soltando, e começaram a fazer piadas, obviamente. Tanto que, após Johnny dizer - “lembrando que já são quase 2 anos sem tocar em um palco” - alguém na platéia puxou aplausos e Mairtín rindo, já trouxe o bom humor irlandês dizendo “esses aplausos são por estarmos fora dos palcos por quase 2 anos?”


Não conhecia o trabalho de Johnny Duhan, que é compositor, violonista e cantor. Canções muito bonitas e várias regravadas por vários artistas da música irlandesa, como Dolores Keane e The Dubliners. Enquanto ele tocava, Mairtín e Frankie acompanhavam delicadamente com notas longas e solos bonitos.

Paralelamente, entre as canções de Johnny, Mairtín e Frankie tocam sets maravilhosos de reels, hornpipes, jigs e slides. Não é à toa que ainda são tão reconhecidos e renomados - eles tocam com uma energia e uma precisão que é difícil de encontrar por aí. Fora a interação entre eles, por serem amigos de infância, já se entendem só pelo levantar da sobrancelha ou pelo olhar. E tiram sarro um do outro o tempo inteiro.




Para mim, o destaque do show foi quando Frankie e Mairtín fizeram um arranjo de “The Arrival Of The Queen Of Sheba” de Handel, que foi gravada por De Dannan no álbum “How the West was won”. Há tempos atrás alguém propôs à Frankie de fazer este arranjo, mas ele não sabia ler partitura e achou muito difícil decifrar tudo aquilo. Porém lembrou que seu amigo Mairtín sabia ler partitura muito bem e foi assim então que este arranjo surgiu. Achei fantástico escutar uma música barroca com sonoridade irlandesa, cheia de cuts e rolls.

Outro ponto alto do show foi quando tocaram uma tune klezmer de Andy Statman, um clarinetista e bandolinista judeu do Brooklyn - NY.


O show terminou com a canção “Don’t Give Up ‘Till It’s Over” de Johnny Duhan, com as poucas pessoas da plateia cantando junto. Saí do teatro renovada, lembrando do porquê de eu gostar tanto de música tradicional irlandesa e o quanto ela fala comigo.





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