• Mila Maia

Você já ouviu falar de Sean-Nós?



Sean nós singing
Photo by Cyril-Helnwein

Acredito que para a maioria das pessoas, quando pensamos em um cenário com música irlandesa, reels e jigs acompanhados por fiddles, flautas, uillean pipes (gaita de foles irlandesa) nos vem à cabeça, com gente dançando e pints para todos os lados. Esse cenário não está totalmente equivocado, mas devo confessar que na maior parte das vezes o clima de uma session aqui na Irlanda é bem diferente disso. Eu diria que é um momento mais introspectivo, intenso e até mesmo melancólico comparado por exemplo com uma roda de samba, onde sorrisos e cabeças erguidas são notados toda hora. Conhecendo cada vez mais sobre a cultura do povo irlandês e sobre a história deste lugar, essa introspecção começou a fazer sentido e reflete em cada tune tocada ou cantada. Há um momento na session que esta melancolia vem com tudo e arrepia todo mundo que está assistindo, desde turistas a locais, que é o “sean-nós singing”. Quando alguém vai cantar um sean-nós, pede-se silêncio para todos do pub e surpreendentemente TODOS, até mesmo o bêbado mais bêbado fica quieto para escutar. Mas o que é o sean-nós afinal?


Sean-nós - que significa literalmente “estilo antigo” - é um estilo de canção (ou dança) sem acompanhamento de instrumentos e na grande maioria das vezes em gaélico irlandês. Este estilo vem da tradição de poesias dos bardos, que eram consideradas complexas e refinadas nos séculos 16 e 17, até que conflitos políticos e proibições feitas por Henry VIII e Elizabeth I contra músicos (especificamente em Irlandês) tomaram conta e essa tradição foi morrendo aos poucos. Em paralelo, alguns desses bardos continuaram a performar nas ruas, assim formando um novo estilo - “sráid-éigse” ou “poesia de rua”. Eram escritos por bardos itinerantes com métricas mais simples e já não mais tão refinadas quanto antes. Após um tempo, o sráid-éigse se tornou algo muito próximo ao que conhecemos hoje como sean-nós singing.


Mesmo sendo um canto poético e muita das vezes com letras sobre amor (na maioria das vezes um amor perdido, ou o amor à terra que teve que ser deixada), a expressividade do sean-nós não está nos gestos corporais, contato visual ou em uma forma teatral e cheia de dinâmicas, mas sim na maneira como o intérprete ornamenta e varia a melodia. É muito sutil e focado na história, sem grandes dramaturgias, quase como se estivesse sozinho naquele pub. Mesmo sem entender quase nada de gaélico irlandês, você sente o peso daquela canção e todas as sutilezas interpretadas pelo cantor.


Os estilos mais marcantes de sean-nós singing são os de Munster (mais ao sul), Donegal (mais ao norte) e Connemara (região de Galway-Mayo), que são as regiões onde o gaélico mais se preservou. Estes estilos são bem diferentes entre si, como o da Connemara que é carregado de ornamentações (como o do video acima). Já o de Munster, mais reto e com uma certa marcação rítmica. As letras também são diferentes e normalmente canta-se a letra do lugar de onde o intérprete nasceu ou pertence. Dificilmente via-se pessoas de Donegal cantando canções de Munster ou vice-versa.


Claro que hoje em dia o sean-nós vai além das sessions e das casas. Aqui em Galway não é difícil encontrar alguma estação de rádio que esteja tocando sean-nós, ou até mesmo encontrar músicos contemporâneos e de uma geração mais nova gravando e reinventando essa tradição, com novas ideias de arranjos e já colocando instrumentos como forma de acompanhamento. O Gloaming faz isso com grande maestria tendo como representante o grande Iarla Ó Liónaird.



Séamus e Caoimhe Ní Fhlatharta, dois jovens brilhantes da região da Connemara, também inovam interpretando canções antigas e super tradicionais com arranjos a duas vozes, quando normalmente se é cantando em uníssono (uma mesma linha melódica).


Como eu disse anteriormente, quando vemos um sean-nós singer performando na nossa frente é algo muito impactante, tanto para os irlandeses quanto para os turistas, e não importa se é em um pub, na rádio, em um palco ou na televisão - é nesse momento que você entende de alguma forma a herança, o sofrimento e a história do povo local, e por isso se torna inesquecível.

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