• Leonardo Ramos

Around The House: Entrevista com Thon Whistler

Na comunidade brasileira de whistlers, Thon Melo quase não precisa de apresentações. Amante da música celta e irlandesa e das suas derivações fantásticas impulsionadas pela cultura pop, ele desbravou sozinho o seu instrumento, começou a dar aulas e hoje pode ser considerado um verdadeiro influencer de redes sociais, com quase 10 mil seguidores no seu perfil de Instagram dedicado à divulgação da tin whistle, dos gêneros musicais que ela abarca e do ensino da música para iniciantes. Hoje, conversamos um pouco com ele sobre esses caminhos que ele traçou e sobre os projetos que ele toca, que ajudam a, cada vez mais, ampliar o já crescente círculo de interessados na música celta e irlandesa.




O PINT DIÁRIO – Thon, há quanto tempo que você toca tin whistle? Como foi essa descoberta pra você, e como foi esse aprendizado? Você já conhecia alguém que tocava música irlandesa, ou sequer conhecia o gênero, antes de começar a tocar você mesmo?


THON WHISTLER – Olá, Pint Diário! Agradeço muito o convite, a oportunidade de fazer parte deste projeto e principalmente ser um meio de divulgação deste instrumento maravilhoso que é a Tin Whistle!

Bom, comecei minha jornada com a flauta há mais de 10 anos, lá por volta de 2009. Assistindo o épico Brave Heart (Coração Valente - 1995), estreado por Mel Gibson, onde a trilha sonora fez meu coração pulsar mais forte. Eu, que já tocava outros instrumentos, todos aprendidos de forma autodidata, me vi enlouquecido na tentativa de descobrir qual era este instrumento diferente que fazia tão bem aos meus ouvidos. Em uma busca contínua, finalmente me foi revelado que o instrumento era a Tin Whistle, e que, mesmo não existindo em nenhuma loja de instrumentos musicais próximos da minha cidade, eu conseguiria comprar através da internet e ainda por um preço relativamente acessível. Mais que depressa, encomendei minha primeira Féadog no Mercado Livre e aguardei ansiosamente, cheio de expectativas e na confiança que aprenderia facilmente (o que naturalmente não aconteceu, porque levei anos para tocar de forma efetiva).

Na época eu não conhecida absolutamente nada de Musica Tradicional Irlandesa, apenas era (e ainda sou) muito fã da banda Tuatha de Danann.




PINT – Você hoje é um dos mais conhecidos e bem sucedidos professores de whistle no Brasil. O que te levou a começar a dar aulas, e a que você atribui esse sucesso?


THON – Comecei em 2016 um canal no Youtube totalmente de forma despretenciosa, com único intuito de ajudar outras pessoas que se sentiam perdidas, assim como eu me senti lá trás, a darem seus primeiros passos no instrumento. Principalmente por saber da dificuldade em encontrar material em português para começar. Compartilhar conhecimento sempre, por menor que ele possa ser. Lá em 2016 eu ainda era muito inexperiente na flauta, mas fui percebendo que quanto mais eu ensinava, mais aprendia e melhor: realmente estava ajudando muitas pessoas a tocarem suas musicas favoritas. A partir deste momento, me senti na responsabilidade de me aprimorar na Whistle para entregar cada vez mais conteúdo de qualidade. Contei com ajuda e incentivo de muitos músicos, monstros da musica tradicional irlandesa, como Alex Navar, Carlos Simas e vários amigos que estavam sempre acompanhando o meu desenvolvimento.

O resultado do amor, dedicação pelo instrumento, pela arte e por pessoas refletem neste movimento.




PINT – Qual é o perfil dos seus alunos quando estão começando? O que eles buscam? Como descobriram a tin whistle?


THON – O perfil dos meus alunos são variados. Temos em nossa comunidade, desde alunos que já tocavam e já conheciam musica tradicional irlandesa e entraram para desenvolver a forma que tocam, quanto alunos que sequer sabiam da existência da flauta, mas se apaixonaram loucamente pelo timbre incrível. Posso afirmar que a maioria deles não tem pretensão em ser whistlers virtuosos, assim como eu, mas que vêem na whistle a oportunidade de desenvolverem habilidades motoras, emocionais e sociais através da flauta. Além de experimentarem do gostinho gratificante de perceber cada evolução, cada etapa conquistada e a felicidade de aprenderem as musicas que mais gostam.


PINT – Esse público está crescendo, você acha?


THON – Certamente, a divulgação da Whistle vem crescendo muito no Brasil, graças a projetos incríveis como o Pint Diário.


PINT – Você, além de dar aulas presenciais, usa muito a internet para abranger um público ainda maior. Pode nos contar um pouco sobre o que você oferece, em plataformas virtuais?


THON – Atualmente apenas sou facilitador nas mídias sociais. Não temos limites geográficos, nem problemas com agenda e conseguimos democratizar o aprendizado. Tenho um Curso Online gravado na plataforma Hotmart, organizo encontros mensais/semanais e também dou suporte aos meus alunos de forma individualizada. Temos desafios, collabs e até estamos organizando um evento presencial assim que for possível.




PINT – Temas de trilhas musicais de filmes, séries e videogames são, cada vez mais conspicuamente, uma grande porta de entrada para a música irlandesa e para a música medieval. Como você enxerga essa popularização desses estilos na cultura pop? Em outras palavras, por que você acha que, de repente, no Brasil, tanta gente está interessada nessa música e nesse instrumento?


THON – A industria do Cinema e dos Jogos, na minha opinião, tem um papel fundamental neste processo. Eu cheguei até aqui através dos filmes e jogos de RPG que consumi durante minha infância e tenho certeza que muitas pessoas também estão chegando por este caminho. A identificação e o apreço pela historia, fantasia e arte vão tornando possível alcançar diferentes níveis de consciência musical. Enxergo que não são o fim por si só, mas o meio para alcançar diferentes estágios musicais.




PINT – Muita gente busca a tin whistle quase como uma terapia, um escape de uma vida às vezes cansativa ou estressante demais. Essas pessoas encontram o que buscam?


THON – Com certeza, para mim a Whistle sempre foi um refugio da rotina desgastante. Inclusive, recebo diariamente muitos relatos e depoimentos de pessoas que dizem ter tido a vida transformada depois de começarem a aprender o instrumento.


PINT – Qual é a maior dificuldade que os seus alunos (e que você também) encontram no estudo da tin whistle?


THON – A maior dificuldade é dispor de tempo para praticar e aprimorar. Nós vivemos em uma sociedade onde música não é sinônimo de produtividade. Outra dificuldade é assimilar o "gingado" irlandês, parece que por mais que a gente treine, sempre iremos tocar com um "tempeiro abrasileirado". haha


PINT – Por que a tin whistle é um instrumento tão convidativo, inclusive entre pessoas que nunca tocaram música antes?


THON – O som do instrumento é lindo, diferente de todos os outros, é único. Por si só, este já é um grande motivo. Mas também, atribuo por ser de fácil acesso, barato e de resposta rápida para suas primeiras músicas, mesmo aquele que nunca tocou nada, sabe que irá aprender algumas musicas em tão pouco tempo.




PINT – O que você diria para uma pessoa que acabou de conhecer esse instrumento (talvez até por causa dessa entrevista), ficou com vontade de aprender e não faz idéia de por onde começar? Ou, pior ainda, que tem medo de começar?


THON – O medo é paralisante e neste caso, não traz beneficio nenhum. Nossos mais de 500 alunos comprovam que toda e qualquer pessoa é capaz de aprender suas primeiras musicas em menos de 30 dias.

O caminho de aprender um novo instrumento pode ser doloroso quando você tem pouco tempo e nenhuma direção. Pode demorar anos para ver algum desenvolvimento. Mas com um método e uma comunidade que não só te ensine o caminho das pedras, mas te ofereça suporte e incentivo poderá transformar este processo pesado em uma linda jornada alegre, leve e prazerosa.

Também recomendo que avalie os riscos, afinal o que você tem a perder?!


PINT – A Pandemia foi um período bastante paradoxal: nunca tivemos tanto tempo disponível e nunca nos faltou tanta motivação para tocar a vida em frente. Como foi essa experiência para você? Você achou mais difícil estudar música? Ganhou mais alunos ou perdeu?


THON – A pandemia trouxe muitos efeitos colaterais no psicológico e emocional das pessoas. Muitas pessoas olharam para dentro e perceberam que precisavam fazer algo por elas, inclusive resgatar o sonho de aprender um instrumento musical, mas sem a pressão da virtuosidade. Neste ponto, acredito que tenha sido uma grande oportunidade no resgate de si mesmos.

Nossa comunidade se fortaleceu, se uniu e, para mim, foi a força que manteve este projeto de pé, assim como foi o incentivo para muita gente continuar firme nos estudos.


PINT – Que planos você tem para o futuro pós-pandêmico? Ele te parece animador?


THON – O futuro está diante dos nossos olhos! Não posso preve-lo, mas tenho a certeza de que muitos Pints serão levantados e muita música será tocada! Celebrar a vida é urgente, assim como com grande respeito, lembrar e honrar os entes queridos que se foram.


Obrigado por esta entrevista, sempre à disposição!

Thon Whistler





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