• Leonardo Ramos

Primeiros passos na Tin Whistle

Atualizado: Ago 30



A primeira vez que vi uma tin whistle ao vivo e em cores foi no dia do meu aniversário de 17 anos. Era uma Féadog em D, que ganhei de presente de uma ex-namorada que já me ouvia desejoso da pequena flauta há algum tempo. Muito empolgado, tirei a bichinha da embalagem e fui cheio de sede ao pote, certo de exibir toda a minha virtuosidade para a moça. Mas nem sequer uma nota eu consegui produzir no instrumento e, muito embaraçado, pensei que talvez houvesse algo de errado na whistle ou em mim. Na verdade, nem um nem outro estavam com defeito - na verdade, eu acabara de aprender duas lições valiosas sobre o aprendizado da tin whistle (e, a bem da verdade, de qualquer instrumento): “Controle Sua Ansiedade” e “Não Toque Para Se Exibir”.


“Mas o que haveria de ser uma tin whistle?”, pergunta-se o leitor que talvez tenha caído de pára-quedas neste artigo ou neste mundo da música irlandesa. Por essas bandas brasileiras, a whistle já foi chamada de “flauta celta” (que não está errado, mas também não está certo), “flauta irlandesa” (que, na verdade, é outro instrumento) e até “flauta doce” (que lembra, mas é outro instrumento). Ora, este artigo tratará dos primeiros passos para aprendermos a tocar este instrumento que é ícone da música irlandesa e celta - então, para não nos alongarmos além da conta, introduzo a tin whistle neste (não tão) breve vídeo que publiquei no meu canal do YouTube, parte da série “Música Celta Não É Enya”:



Costumo dizer que a whistle é um instrumento que podemos aprender rapidamente, em poucas semanas - mas que podemos levar uma vida inteira para nos tornarmos mestres e dominarmos as sutilezas da técnica, linguagem e expressividade. Grandes músicos irlandeses, como o Brian Finnegan e a Mary Bergin, tocam a whistle como seu instrumento principal e fazem bem valer essas palavras sobre “uma vida inteira”. Por isso, é importante ter em mente, desde o começo, que aprender qualquer instrumento musical é um exercício de paciência e administração de expectativas.


Existem muitas formas, técnicas, escolas e métodos que ensinam tin whistle, e todos eles estão certos e funcionam cada um para um tipo de pessoa diferente. Mas existe, sim, a forma errada de se aprender: enchendo-se de expectativas de curto prazo, julgando cada passo incerto que se dá e nutrindo o objetivo de usar essa nova habilidade como distintivo para se mostrar para os outros. Independente do método, o mais importante é tocar pelo prazer de tocar. Dessa forma, cada nova lição, tropeço e vitória são encarados com leveza, humor e até prazer - e não alimentam aquele sujeito interno que gosta de confete para se sentir valioso, ou nos dá uma chinelada psicológica quando erramos.


Nem todos os que erram estão perdidos, disse Gandalf, o Cinzento. Na verdade, a tradução oficial diz “nem todos os que procuram estão perdidos”, mas sinto que quem se perdeu aí foi o tradutor. A palavra que Tolkien usou em sua fala foi “wander” (“not all those who wander are lost”), que acho muito melhor traduzida como "errar”. Errar por aí, tentar uma coisa, depois tentar outra, explorando o terreno, sem necessariamente perseguir um caminho traçado em linha reta. Assim, creio, é um excelente primeiro contato com a whistle: não se preocupe, logo de cara, com um passo-a-passo ortodoxo que você pode achar em vídeos e livros por aí. Essas receitas serão úteis mais pra frente, para te ajudar a se situar no seu progresso. No começo, bem no começo, sente com a sua flauta e comece a soprar e a mexer os dedos.


Você vai logo notar que a whistle possui apenas 6 furos. Cada um deles pertence a um dedo. Assim:



Destros costumam posicionar a mão direita abaixo da esquerda, e canhotos costumam fazer o contrário. Mas isso não está escrito em pedra, então se você achar melhor inverter as mãos (ou se já toca assim), nada tema. Uma vez que você se decidir, saiba que um dedo jamais irá cobrir o furo que pertence a outro dedo. Isso já dá um certo conforto inicial, creio.


A whistle é um instrumento bastante linear, conforme explico no meu vídeo, o que significa que cada dedo subsequente que se levanta faz subir uma nota. Efetivamente, o levantar progressivo de dedos está encurtando o tubo, e por isso o som vai ficando mais agudo.


Em seguida, você vai notar que ela demanda muito pouco ar nas notas mais graves (isto é, com todos os buracos fechados). Talvez você tenha soprado tão forte que tenha encontrado, logo de cara, a segunda oitava da whistle. Em contraste com a flauta doce, a única diferença entre a primeira e a segunda oitava da whistle é a quantidade de ar que se usa. Assim, você logo vai aprender que, quanto mais aguda a nota, mais ar será necessário para fazer soá-la. Não é MUITO mais ar, é só um pouquinho a mais.


“Pô, então quer dizer que eu vou ter que decorar uma força de ar específica para CADA nota que eu for tocar?” Sim. E não. Você vai aprender isso, sim, mas isso vai acontecer tão naturalmente que você nem vai perceber. Não é que nem decorar a tabela periódica. É mais como aprender a andar. Este é um tipo de aprendizado intuitivo que vai sendo assimilado pelo seu inconsciente conforme você vai explorando o instrumento, arriscando e errando - e acaba ficando totalmente a encargo do seu piloto automático interno.


Muitos passos no aprendizado da tin whistle vão ser interiorizados e assimilados pelo seu piloto automático. No começo, é o fluxo de ar. Depois talvez seja aquela lógica linear e o mapeamento que o seu cérebro vai fazer do instrumento. Por isso comecei já recomendando uma experimentação e exploração livre do instrumento: isso vai te proporcionar um belo mapeamento da whistle, mesmo que não pareça na hora.


O aprendizado de qualquer nova habilidade ou conhecimento não acontece exatamente na hora em que estamos estudando. Ele acontece depois, quando o nosso cérebro processa aqueles estímulos e as soluções que você encontrou para os seus problemas. Isso ocorre, principalmente, enquanto dormimos. Digo isso porque não se deve esperar grandes e significativos progressos especificamente durante o treino do instrumento - eis mais uma forma de administrar expectativas. Inclusive, muito mais proveitoso do que passar horas treinando uma vez por semana, é treinar poucos minutos todos os dias. Digamos que você volta do trabalho e só tem 5 minutos para tocar enquanto o jantar esquenta no microondas: 5 minutos por dia são mais do que o suficiente para que o cérebro comece a mapear esse novo instrumento. Faça isso por algumas semanas e talvez você se surpreenda com o seu progresso. E cuidado para não queimar o jantar.


Claro, conforme você for progredindo, mais tempo de estudo pode se fazer necessário - e prazeroso, pois quanto mais prática pegamos, mais fácil fica de aprender. Ainda assim, não estou falando de horas todos os dias. Na verdade, chegará um momento em que só uma session por semana já vai ser o suficiente para, pelo menos, manter o que você sabe. Tente, se possível, não se limitar sempre ao “mínimo necessário”, porque é bastante prazeroso progredir e se perceber cada vez mais hábil para “conversar” com os outros usando instrumentos.



No Brasil já temos bons professores de tin whistle que podem te ajudar e te guiar no seu progresso (incluindo este que vos escreve), e, para além do bom e velho português, a internet está apinhada de tutoriais e cursos como o da Online Academy Of Irish Music (www.oaim.ie). Mas a melhor escola de música irlandesa sempre foi e sempre será a Irish session. É ela que dá o sentido maior de tudo o que se faz nessa música - música, essa, que vem de uma tradição oral, em que as melodias são passadas de boca a boca, como histórias populares. Por isso, não se preocupe se você não tem prática ou não gosta de ler partituras - tradicionalmente, a música irlandesa aprende-se de ouvido. Entre tantas coisas que o seu piloto automático vai assimilar está a habilidade de aprender músicas por imitação. Se você gosta ou precisa desesperadamente de partituras, também não se preocupe: o thesession.org tem as partituras para todos os temas tradicionais e contemporâneos da música irlandesa! Vale lembrar, porém, que estas partituras são meramente um registro de notas enfileiradas e, de forma alguma, traduzem a linguagem, expressividade e ornamentação dessa tradição oral. Por isso, o próximo parágrafo seja talvez o mais importante de todos.


Certa vez ouvi uma história de um gaiteiro irlandês que colava, dentro dos cases de instrumentos dos seus alunos, um adesivo com a frase “você já ouviu música irlandesa hoje?” Ok, você não precisa ouvir com essa freqüência toda, se não quiser - cá entre nós, eu também não ouço todos os dias. Mas pense assim: um estilo musical é um idioma, um idioma que se fala com instrumentos. Aprender um idioma é no mínimo mais fácil quando nossos ouvidos estão acostumados com ele. Por outro lado, pense no Latim, uma língua que alguns lêem e escrevem, mas que ninguém sabe ao certo como pronunciar, uma vez que não sobraram registros de romanos antigos jogando conversa fora. Felizmente, a música tradicional irlandesa que conhecemos é bem mais recente do que a Roma antiga, e nós temos gravações e sessions o suficiente para manter um instrumentista bem informado, fluente e motivado por toda a sua vida. Siga, pois, O Pint Diário, e conheça cada vez mais bandas, instrumentos, dicas e sessions.


E se você ainda não tem uma tin whistle, fique com mais um vídeo da minha série “Música Celta Não É Enya”, que fala justamente sobre como comprar esta que não é bem “flauta celta”, nem “flauta irlandesa”, e tampouco “flauta doce”:







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