O Pint na Cozinha

Imagine uma panela onde há óleo, alho e cebola fritando e bem ali, junto com esse tempero todo, você joga a mistura (sua carne, seus vegetais, mande ver o que você quiser cozinhar). Da mesma maneira, na música, tem-se os instrumentos harmônicos e rítmicos preparando a base para começar a fritação. É por isso que o apelido musical dos instrumentos de acompanhamento é “cozinha” e também é por isso que o nome desta nova série d’O Pint Diário é exatamente “O Pint na Cozinha”. Por que nós vamos falar sobre os instrumentos que acompanham a melodia: os harmônicos e melódicos. Especulando um pouco, este nome também pode ser associado à questão de que a cozinha da casa é um lugar onde reunia-se a família toda tanto em momentos cotidianos como a hora de comer quanto em momentos de lazer como as Ceílís, por exemplo em que se fazia música, dança e poesia.



O acompanhamento, harmonia e ritmo, é um dos meus assuntos musicais preferidos e, na música irlandesa, ele se torna ainda mais interessante por não fazer parte da tradição musical. Isso significa que, no princípio, os irlandeses usavam somente instrumentos melódicos tocando em uníssono. Esse fato é o que traz para o músico acompanhante liberdade de expressão em alguns aspectos como por exemplo, não ter que tocar a mesma progressão harmônica sempre que tocar uma música ou uma levada rítmica (como é o caso do rock, por exemplo, em que temos que tocar acordes e levadas bem específicos). Tudo isso, claro, dentro de alguns limites bem importantes que são: estar afinado e na tonalidade e ritmo corretos. Não existem obrigações e nem convenções neste sentido e a minha opinião é a de que isso é maravilhoso e desafiador ao mesmo tempo pois, se por um lado eu posso fazer aquilo que eu desejo, por outro, preciso estar mais atenta do que nunca aos que estão tocando a melodia pois quero criar um acompanhamento que faça uma verdadeira conversa com estes músicos e isso significa estar conectada a eles.


Ao ouvir, ver e tocar junto com diferentes harmonistas e ritmistas, percebi essa diferença em suas escolhas de acordes, em sua expressão rítmica e até mesmo de dinâmicas musicais. Assim, achei interessante começar esta série - para que nós (eu, que escrevo e vocês que leem), juntos, possamos conhecer músicos diferentes e saber como cada um pensa na hora de construir a sua forma de acompanhar.


Vocês já pararam para perceber a diferença entre dois violonistas tocando irish tunes? São formas de acompanhar completamente diferentes. Aqui estão por exemplo Tim Edey e John Doyle acompanhando o flautista e piper Michael McGoldrick.


Com John Doyle, ele tocou Leaving Uist (uma valsa) e Lochaber Badger (um Reel), ambas composições do piper Fred Morrison.




Já com Tim Edey, ele tocou Mist on the Mountains (um Jig) e The Bass Rock (Reel) sendo a segunda tune, composição do McGoldrick.


O mesmo flautista acompanhado por dois violões completamente diferentes.


Ou podemos ver também o mesmo piper, Michael McGoldrick, tocando dois reels acompanhado pelo grande John Joe Kelly no bodhrán.




E, para vermos como cada músico tem sua forma tão particular, podemos ver aqui Ronán Ó Snodaigh com seu bodhrán transformando a música em algo ainda mais além.



Por isso, nesta série vamos entrevistar músicos do Brasil e de outras nacionalidades, conhecer seus instrumentos, seu trabalho, seus pensamentos musicais, sua forma de construir um acompanhamento e conversar com a melodia. E para isso, as entrevistas sempre vão girar em torno da pergunta: como você constrói o seu acompanhamento para irish tunes?


Vai ser interessante saber o que cada músico valoriza em primeiro lugar ou talvez aquilo que ele percebe primeiro: o ritmo? a melodia? o quê?


Estou muito empolgada pela conversa que teremos por aqui e espero que vocês gostem tanto quanto eu. E, se quiserem trazer sugestões de músicos ou até mesmo de novas perguntas e curiosidades para serem incluídas nas entrevistas, basta entrar em contato com O Pint Diário e teremos o maior prazer em ouvir.


Não percam as entrevistas que estão por vir!


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