O Pint na Cozinha: Arrigo



O acordeão é um instrumento bem popular na música brasileira. Luiz Gonzaga, Dominguinhos e Renato Borghetti são só alguns dos nomes de músicos do nosso país que consagraram este instrumento. Mas como seria usá-lo para acompanhar a música irlandesa? É fato que na Irlanda é muito comum encontrarmos a concertina, que é um instrumento da mesma família, como já nos disse a Mila em seu artigo sobre este instrumento, mas mesmo sendo parentes, não são iguais.

E é por isso que hoje nossa entrevista é com este sanfoneiro que toca música irlandesa, música brasileira, música francesa e muito mais. O Arrigo, que também é conhecido e apresentado em seus shows como o "maestro" da banda Terra Celta, tem uma música só pra ele (ouçam Arrigo’s History - Terra Celta) e, além de acordeonista, também é pianista. Atualmente seu acordeon fez parte da trilha sonora da apresentação da Seleção Brasileira de Ginástica Rítmica nas Olimpíadas de Tóquio com o clássico “Qui nem Jiló” de Luiz Gonzaga.


O Pint Diário - Arrigo, conta um pouco sobre a sua trajetória musical. Como você começou, onde estudou, com quem já tocou, quem são os músicos que mais te inspiraram e inspiram? Que estilos musicais são sua influência mais forte?


Arrigo - Comecei minha trajetória com 12 anos tocando na igreja. Cursei o curso de licenciatura em Música na Universidade Estadual de Londrina. ( UEL ).

Atuava como pianista até que tive contato

com o acordeon na faculdade, fui aluno

do Gabriel Levy e também tive aulas em festival de música com Toninho Ferragutti.

Tenho influências nordestinas ( Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro ), MPB ( Zeca Baleiro, Lenine, entre outros ) e músicos instrumentais ( Pixinguinha, Jacob do Bandolin, Hamilton de Holanda, Renato Borguetti ).

Mas desde pequeno ouço muitos tipos de música influenciado por meu pai, que apesar de não tocar nenhum instrumento, sempre foi um admirador de música e colecionador de vinil. Querendo ou não eu sempre escutei muitos estilos musicais.

(No vídeo, Arrigo está "acompanhando" suas influências musicais em um projeto dos artistas)


O Pint Diário - E atualmente, quais são suas áreas de atuação?

Arrigo - Antes da pandemia tocava quase que exclusivamente com a Terra Celta. A agenda da banda quase não dava espaço pra fazermos outros trabalhos.

Após a pandemia, com as atividades voltando aos poucos consegui tocar com outros trabalhos que sempre gostei como Clube do Choro de Londrina, com Rodrigo Munhoz (músico que tem um trabalho de canções francesas ) e algumas vezes fiz apresentações solos no acordeon e algumas no piano .


O Pint Diário - E agora AQUELA pergunta: na música irlandesa, a harmonia é livre e está sujeita às escolhas do próprio harmonista (ainda que esteja atrelada à rítmica e tonalidade da melodia). Percebo que cada pessoa faz escolhas bem diferentes e únicas, com base na sua própria musicalidade. Como você pensa a sua harmonia? Como você pensa para fazer o acompanhamento de irish tunes?

Arrigo - A Harmonização na música irlandesa costuma ter uma liberdade muito grande. Muitos temas são modais ( músicas circulares ) o que favorece a harmonização . Mesmo nos temas tonais (melodias com tensão, repouso e afastamento) tem a liberdade de harmonizar normalmente usando o campo harmônico apenas, sem mudanças “drásticas” (graus altos, empréstimo modal).

O Pint Diário - Se você está em uma irish session em que alguém puxa uma tune que você nunca ouviu, como você constrói este acompanhamento? O que você pensa primeiro para acompanhar uma tune que nunca ouviu?

Arrigo - Entrar numa “roda” de música Irish, ao contrário do que possa parecer, para o “harmonista” não é tarefa tão simples. A harmonização costumeiramente é simples mas acompanhar uma tune com solistas sem nenhum harmonizador pra pegar “carona “ exige uma atenção muito grande na melodia, elas direcionam a harmonia.

Precisa saber se a música está no tom maior ou menor.(nesse caso da pra saber perguntando aos músicos.) A harmonia está presente nas melodias.

Seguindo essas primeiras informações eu começo harmonizar uma tune sem nunca ter ouvido. Inversões de acordes são comuns na harmonização que costumo fazer quando estou tocando o estilo. Fazendo essas inversões acaba aparecendo novas melodias nas notas.


O Pint Diário - Na Terra Celta, como você busca construir a linha do acordeon? Pensando que na banda já existem a guitarra e o baixo fazendo “a cozinha” tradicional.

Arrigo - Na Terra Celta temos pelo menos 3 instrumentos melódicos. O acordeon, passei tanto pelas melodias quanto pelo acompanhamentos.

Costumamos, juntos, testar opções sonoras tanto de timbre, (instrumentação usada) quanto de linhas melódicas, uníssonas, dobradas ou intercaladas)

O processo de construção parte muito de testes durante os ensaios.


O Pint Diário - Que dicas você daria para uma pessoa que toca música brasileira e quer começar a tocar música irlandesa? E para um iniciante que quer começar a tocar irish (especialmente iniciantes que queiram começar a tocar instrumentos harmônicos)?

Arrigo - Para aqueles músicos (iniciantes ou não) que querem se aventurar nesse estilo a primeira dica é : baixe, compre e escute muito o estilo. Assim você começa a “incorporar” características dele, mesmo não sabendo explicar exatamente o que é.

A segunda dica, essa serve para qualquer pessoa que quer aprender um instrumento e nem seria necessário citar: estude e domine seu instrumento.


O Pint Diário - Arrigo, você toca muitos bem vários estilos diferentes. Porque a música irlandesa é aquela que parece tomar mais espaço na sua vida? É isso mesmo ou é só uma impressão minha rs?

Arrigo - A música irlandesa entrou muito por acaso em minha vida. Antes de começar o envolvimento com ela eu tocava vários estilos : forró, choro, música pop, mpb, bossa nova, músicas francesas e até me aventurava no jazz/blues .

Em uma dessas variadas gigs que eu fazia surgiu uma em especial. Um repertório todo de Fado. Ali eu toquei pela primeira vez com o Élcio, nós nos conhecíamos da noite londrinense mas nunca tínhamos tocado juntos.

Depois dessa apresentação ele comentou sobre o interesse de tocar música irlandesa. Fiquei interessado, pois nunca tinha visto e ouvido nada do gênero.

Assim comecei a trajetória. A Banda em pouco tempo virou prioridade, até então as datas de shows eram marcadas apenas se tivéssemos agenda livre.


Arrigo rearmonizando a música "Um Outro Lugar" na live da banda Terra Celta em 12/7/2020


O Pint Diário - Agora uma pergunta que se tornou polêmica aqui n’O Pint Diário: os reels são em 4/4, 2/2 ou 8/8? Como você pensa para tocá-los?

Arrigo - 4/4, 2/2 ou 8/8? Gosto de seguir as frases melódicas. Dependendo do tamanho delas eu penso a contagem em 4/4 ou 2/4 .( pra mim é incomum pensar em 2/2 ou 8/8, vou experimentar aqui).




Não deixem de conferir a nossa matéria sobre a banda Terra Celta!

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