• Leonardo Ramos

Ornamentação: Sotaque, Expressividade e Poesia na Música Irlandesa

Atualizado: Jul 10



A expressividade e ornamentação da música irlandesa estão entre os elementos que a fazem tão particular, e muitas vezes difícil de dominarmos. É uma coisa aprendermos uma língua – agora navegar os sotaques dela pode ser uma questão bem mais complexa. Pois ocorre que, justamente na música irlandesa, esse sotaque é onde uma parte significativa da diversão pode acontecer. É com o uso da ornamentação e de variações no fraseado (dentro, claro, da gramática da música irlandesa) que os músicos mais experientes são capazes de repetir várias vezes uma mesma tune sem jamais tocá-la duas vezes da mesma forma. É, de fato, onde reside aquele tempero inesperado no que se ouve.


Vale lembrar que a música irlandesa não costuma ser aprendida por métodos e livros. Na verdade, o aprendizado por métodos didáticos, passo-a-passos, livros e tudo o mais são até um tanto alienígenas à tradição irlandesa - que, por sua vez, prefere uma abordagem de aprendizado por imitação e repetição. Repetição daquilo que se ouve, e, portanto, pressupondo também que se experiencie bastante a música e as suas várias maneiras de se manifestar. Cada músico se expressa de uma forma particular com a linguagem irlandesa, que por sua vez tem seus "estilos" ou "sotaques" mais próprios de cada região do país.


E então, em cima do que se ouviu, pratica-se. Aprendemos primeiro os sons de uma língua e, com a prática e um conhecimento cada vez mais íntimo das suas possibilidades, podemos fazer poesia com ela.


No vídeo abaixo, desenvolvo mais a fundo este tema, demonstro alguns ornamentos básicos na Irish flute (que também servem à tin whistle) - e mostro como podemos treinar a natureza percussiva da ornamentação irlandesa contemplando o estalar de uma toalha de banho:




Outros instrumentos têm, cada um, seu próprio espectro de possibilidades expressivas que, naturalmente, continuaremos a cobrir n'O Pint Diário. O nosso colaborador Sandro Bueno, por exemplo, faz um interessante intercâmbio de ornamentação entre a música irlandesa na tin whistle e a música galega na gaita de foles. Em seu canal do YouTube, ele também oferece uma explicação fantástica sobre esses ornamentos - inclusive com uma corretude impecável com as denominações que, sinto, escapou-me aqui e ali no meu próprio vídeo!


Sendo um estilo musical popular, transmitido numa tradição essencialmente oral, é mais do que recomendado buscar pessoas diferentes explicando os mesmos conceitos para entendê-los melhor. Não diferente, aliás, de como aprendemos as próprias tunes: vale à pena ouvir a mesma tune tocada por músicos diferentes, para que possamos compreender melhor as suas dimensões e potencialidades expressivas! Em sua poética coletânea de crônicas sobre música tradicional irlandesa, o livro "Last Night's Fun", o escritor irlandês Ciaran Carson pondera um fenômeno curioso que, tenho certeza, já chamou a atenção do ouvinte atento: ele diz que certas tunes parecem passar de mão em mão longa e sucessivamente até encontrarem um músico que as compreende de uma forma especial, e faz surgir delas um sentido especialmente poético. Mas estou me desviando do assunto.


Com vocês, mestre Sandro Bueno!







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