Existe uma música Celta?

Está aí uma pergunta que pode aparecer logo que se entra em contato com este maravilhoso universo, e que é um tanto diverso, eu diria.

Para começar, e como tudo o que gera dúvidas e confusões, “Celta” é uma palavra de origem incerta e que foi usada para significar muitas coisas diferentes durante a história. O primeiro registro dessa palavra parece ser de 517 AEC por Hecateu de Mileto, um geógrafo grego, se referindo ao povo que habitava o que hoje é Marselha, no sul da França, um pouco longe da Irlanda…


Depois, a palavra passou a designar muitos outros povos no centro e oeste da Europa até onde hoje ficam Portugal e Espanha e demorou uns bons séculos para passar a dizer respeito à Irlanda e às outras nações que chamamos Celtas hoje em dia. Outras palavras eram usadas para cada um dos povos dessas regiões e que estão na origem dos seus nomes modernos.

Essa definição de quem é “celta” que usamos vem de estudos de linguística do século XVI, que categorizou por ancestralidade comum seis línguas: os gaélicos irlandês e escocês, o manês, o galês, o córnico e o bretão.


Ou seja, as seis nações celtas são:


  • A Irlanda

  • A Escócia

  • A Ilha de Man (Dependência da Coroa Britânica, sem fazer parte nem do Reino Unido, nem da UE, fica entre a ilha da Irlanda e a Grã-Bretanha)

  • O País de Gales

  • A Cornualha

  • A Bretanha (península no noroeste da França)




Essa categorização, que tem também fundamentos culturais e até genéticos, deu frutos no imaginário romântico e nacionalista dos séculos XIX e XX levando a movimentos culturais e políticos de reavivamento das línguas, literatura, artes, música, esportes, e fortalecimento das identidades nacionais, tanto de forma individual como em conjunto, como uma forma de identidade compartilhada em oposição à dominante, na maior parte dos casos a britânica, mas também a francesa e até a espanhola (mais sobre isso logo a seguir).



Portanto, a música Celta seria a música tradicional das nações onde se falava e ainda se fala uma das seis línguas do ramo celta. Seria simples se fosse só isso.


Especialmente para os irlandeses e escoceses, celta traduz de forma muito ineficaz a sua música. Como aponta Scott Reiss, o termo Celta compreende aquelas músicas tradicionais dos países que rejeitam Celta como categoria.

O motivo disso está associado ao uso quase abusivo desse termo por parte primeiro da indústria fonográfica e depois do cinema e dos jogos, gerando estilos musicais ainda mais diversos. Indo de bandas de gaitas de foles escocesas a Loreena McKennitt, do fest-noz bretão a Enya, de corais de Natal galeses à playlists do Youtube para meditação com harpas e sons de água e pássaros; canções de bêbados, de marinheiros, de mulheres abandonadas, de saudades da terra, dos hobbits e dos elfos; jigs pra dançar com sapateado, gavottes pra dançar em grupo com um sem número de pessoas, strathspeys pra dançar sozinho, ou em grupo, polkas pra dançar em par, na terceira classe do Titanic ou na festa da Rainha da Inglaterra. E tudo isso cabe na grande e deliciosa salada mista que é, por exemplo, o Festival Interceltique de Lorient. Um festival que foi criado em 1971 para celebrar a cultura bretã e as relações que ela tem com as outras nações.



Alguns podem estar se perguntando sobre a Galícia. Essa província da Espanha, junto com a vizinha Astúrias e até Trás-os-montes em Portugal, vêm sendo considerados Celtas em alguns contextos, mesmo não fazendo parte dos seis “originais”, uma vez que o galego, o asturiano e o mirandês são línguas latinas e não fazem parte do ramo celta. Apesar de haver resquícios na língua, na genética e em achados arqueológicos que ligariam o noroeste da península ibérica aos outros países, parece ser pelo aspecto musical que essas nações vêm sendo incorporadas como celtas, apesar de também terem línguas e identidades minoritárias.



É muito fácil perceber a forma como esses povos se relacionaram durante os séculos: o Mar.

Geograficamente, as oito regiões são bastante próximas, e apesar do clima não ser dos melhores (graças às correntes do Atlântico), são águas navegáveis. As rotas marítimas entre essas regiões vêm sendo usadas há séculos!

Outra região que também tem sido considerada é a ilha do Cabo Bretão (Cape Breton) no Canadá, que teve forte imigração escocesa e manteve e desenvolveu a cultura e a língua de forma muito própria.



Também é importante citar que as músicas tradicionais de todos esses países, apesar de terem origens mais ou menos antigas, passaram por movimentos de reavivamento, em alguns casos no século XIX e, em todos os casos, a partir dos anos 60. Quem conta um conto, aumenta um ponto...


Portanto temos aqui muitas coisas diferentes: povos da antiguidade que foram chamados celtas posteriormente, línguas de um mesmo ramo linguístico, comércio entre esses países, movimentos identitários e nacionalistas e gente tocando a música que gosta.


Eu diria que o último pouco tem a ver com o primeiro, mas há relações complexas entre essas coisas todas que tornam o assunto muito diverso e de difícil definição. O que seria celta de fato, o que vem dos antigos, da língua, da política ou da gaita de foles? Difícil dizer.



Mas sobre as gaitas de foles, uma polêmica. O Carlos Nuñez, renomado gaiteiro galego, costuma dizer que a gaita de foles é o instrumento que traduz a música Celta. Já o meu grande amigo e construtor de gaitas de foles português Gonçalo Cruz, que anda reconstruindo a extinta gaita de foles dos finlandeses, diria que na música Celta não há banda sem bouzouki.


Para continuar sendo polêmico, a música Celta é tudo isso e não é nada disso, é um reflexo da pós-modernidade.




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