• Leonardo Ramos

Project Smok: A Nata da Juventude Escocesa Inovadora



A tradição estilística das músicas tradicionais da Irlanda e Escócia, que vem se popularizando desde o século XIX, preencheu ainda apenas as primeiras páginas de um grande livro de história que tem um plot twist novo a cada nova geração de músicos experimentadores e cara-de-pau. E a juventude escocesa parece especialmente empenhada em soprar lufadas de ar fresco e inovação neste gênero tão versátil que andamos falando por aqui n’O Pint Diário. Talvez uma das mais jovens bandas a contribuírem com suas tunes e sua visão refrescante é a formada por Ali Levack, Ewan Baird e Pablo Lafuente: O Project Smok.

Claros traços estilísticos do mestre flautista Brian Finnegan me parecem ter influenciado o virtuoso Ali Levack, que em 2020 foi considerado Young Traditional Musician Of The Year (Jovem Músico Tradicional Do Ano) pela BBC. Suas melodias e ornamentações, apesar de fazerem jus às raízes do gênero, distinguem-se pelo gingado próprio e pela propriedade admirável de prenderem-se na nossa cabeça pelo resto do dia. Comumente, suas tunes desviam-se do padrão AA-BB em que orbitam as tunes mais tradicionais e buscam caminhos que por vezes nos fazem ponderar se estamos ouvindo um tema composto e cíclico ou um improviso livre. De fato, levadas para passear pelos cenários indie e pop, mesmo tunes tradicionais como a Mountain Road Reel são retorcidas e ressignificadas pelos Smoks.



Em torno dessas sedutoras melodias, os ritmos de Ewan Baird e as harmonias de Pablo Lafuente dançam de forma habilidosa, também fazendo referência ao indie/pop, mas sempre na corda bamba que faz a fronteira com a música tradicional. O bodhrán de Baird é leve e preciso, e faz o pop dobrar-se ao trad – e não o contrário, como foi tão comum ver nas bandas Irish-pop das décadas de 80 e 90. O mesmo pode ser dito da guitarra elétrica de Lafuente, que preferem um timbre limpo e caminhos pouco percorridos do que simplesmente apoiar-se em distorções pesadas e progressões que já ouvimos antes.

Reverb? Não, não: o som é limpíssimo e cristalino! Sintetizadores? Também não abundam! O que vemos aqui, minhas caras e caros, é um novo "Celtic revival" muito distante daquele New Age que conhecemos lá atrás!



O Project Smok foi criado em 2017 – em 2018, foram nomeados “Best Up And Coming Artist” (Melhor Artista Emergente) pelo MG ALBA Scots Traditional Music Awards – ganharam o prêmio “Belhaven Bursary For Innovation” em 2019 – e vêm fazendo produções autorais cada vez mais criativas desde então. O som é poderoso e sensível em iguais medidas! Desperta, mesmo, uma vontade de levantar das cadeiras e agitar-nos numa pista de dança – um lembrete em bom tempo de que a música tradicional é, antes de mais nada, feita para dançarmos. Entre os lançamentos mais recentes, está uma colaboração com o DJ Valtos – essa sim extrapolando os limites da música pop eletrônica, e fazendo-o com uma maestria que nada deve ao tradicional:



Vale, finalmente, uma ouvida cuidadosa do novo álbum da banda, lançado em 2021, chamado "Esperanza". Aqui vemos a banda já se esticando para além do indie/pop e trazendo um som ainda mais amadurecido e complexo do que o que já nos encantava até então. Fica a curiosidade de acompanhar de pertinho os próximos passos do Project Smok e conferir o resto do baralho que eles podem tirar da manga em seu desenvolvimento futuro!



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