• Leonardo Ramos

FIANNA: Relatos Nostálgicos Sobre Um Bando De Músicos Guerreiros




Com os dedos murchos de tanto tocar, e quando já alguns bravos instrumentistas haviam cedido às pressões impostas pelo cansaço e pela cerveja, dois homens marcharam para dentro do finado Ye Olde Pub empunhando uma pasta preta, um bodhrán e um violão. Foi assim, durante a primeira grande Session Nacional brasileira, em plena rua Augusta, o primeiro contato que tive com Ivan Cavalheiro e Claudio Crow, fundadores da tradicional banda Fianna, que toca canções e tunes irlandesas desde 2014. Muito educadamente, tomaram assentos, desembainharam seus instrumentos e, aproveitando o incomum momento de quietude, puseram-se a injetar uma empolgação a mais na roda, cantando rebel songs e drinking songs que tiravam daquela pasta preta. A princípio, culpei minhas falhas em acompanhar as letras nos pints de Black Cab que andara consumindo copiosamente – mas então notei que, de fato, eles cantavam palavras diferentes das que eu conhecia. Uma olhada mais cuidadosa para a pasta de letras me revelou que não se tratavam meramente de transcrições de famosas versões dos Dubliners, mas realmente letras bastante especiais. Cada uma das velhas conhecidas que puxavam era temperada por uma pesquisa a mais sobre versos alternativos e pouco lembrados, que “seduziam pela familiaridade, mas provocavam pela estranheza”.



Foi com essas palavras que Claudio, violonista e vocalista, descreveu para mim a sua impressão da música tradicional irlandesa meses depois, quando o entrevistei para um certo documentário que andava produzindo. Com os olhos brilhando de empolgação, ele me contou um pouco sobre sua visão dessa tradição tão pouco conhecida em terras brasileiras, decorando sua fala articulada com citações poderosas – como a de J. R. R. Tolkien, que disse que “celta é uma bolsa mágica: sai de tudo lá de dentro” e a história do cantor Noel Gallagher (da banda Oasis) que afirmou ter aprendido muito com a atitude “punch in the air” (soco no ar) que percebia na música irlandesa, que crescera ouvindo em casa. A mesma retórica cativante ele leva para os palcos de pubs consagrados de São Paulo, como o O’Malley’s e o Finnegan’s – não apenas despejando melodias fantásticas no público mas de fato explicando sua origem e sentido. Claudio também é escritor e palestrante, com trabalhos voltados para mitologia e espiritualidade celta, bem como para a dimensão literária da fértil cultura irlandesa, e periodicamente guia grupos turísticos em viagens para a Ilha Esmeralda.



“Comida”, disse Ivan, bodhráni e vocalista, em entrevista, em uma categórica analogia com a música que tanto ama tocar: “se eu não comer, eu morro. Se eu não tocar, também morro. Desde a primeira nota que toquei, a música nunca mais parou. Vai parar só quando o meu coração parar, porque aí o meu tambor parou.” Também uma alma literária, com a inigualável habilidade de recomendar o livro certo para cada pessoa que guarda neste tambor interno, Ivan completava a carismática dupla inicial, que então se chamava Bollix. Em uma fala apaixonada, compatível com a de seu parceiro, ele me contou sobre quando propôs para Claudio rebatizar a banda de Fianna. Uma homenagem forte ao mitológico bando de guerreiros irlandeses, liderados por Fionn mac Cumhaill (também conhecido por Finn McCool), e que não eram apenas bons lutadores: um Fianna também haveria de ser um bom poeta, contou-me Ivan. A proposta soou ambiciosa para Claudio, que ponderou se não era descabida para um duo de voz, percussão e violão – este nome haveria de caber melhor a um grande bando. Irredutível, Ivan garantiu-lhe a Fianna haveria de ser um bando: em número e em sonoridade.



Assim, juntaram-se ao grupo Eduardo Manzo, no violino, e Tama Froglia, no baixo elétrico e completando os naipes vocais. Ela, professora de canto e baixo, com poderosas versões de Wild Rover, My Lagan Love, Dirty Old Town, Whiskey In The Jar (que, lembra o grupo, não é de autoria do Metallica), entre outras; ele, o viking mais polido e simpático que já tive a honra de conhecer, não obstante fazendo suas cordas ressoarem pelo mais lotado dos pubs; e todos dividindo a atenção de uma platéia encantada por essa cultura “sedutora porém provocativa”. Uma conversa com a banda, invariavelmente regada a cerveja, rende um manancial de histórias de palco, envolvendo bêbados, ritmos estrondosamente rápidos e criaturas potencialmente sobrenaturais. Conversas tão boas que, muito de repente, vi-me intimado a integrar o bando com minha Irish flute e voz, ao lado dos amigos Paula Camacho (violão DADGAD e voz), Thomas Mourão (whistles e cajón), Amanda Pinheiro (bodhrán) e, pouco depois, Felipe Tupã (bandolim e banjo) – membros, junto comigo, da banda Harmundi, que já naquela época puxava a música irlandesa para o Lado Psicodélico da Força.



As diferenças criativas acabaram separando Fianna de Harmundi pouco mais de um ano depois, mas não sem termos nos amontoado em palcos grandes e minúsculos, contabilizando mais um capítulo de histórias inacreditáveis envolvendo brasileiros, irlandeses e mais bêbados; e não sem termos deixado um registro desta saudosa formação magnânima, na forma de uma gravação da Snow Set, aqui disponibilizada: um número harmúndico introduzido pela Snow reel composta pelo mestre Mourão, amplificado para dimensões fiânnicas de interpretação e instrumentalização, gravado e mixado por ninguém menos que César Benzoni, multi-instrumentista da banda Oran e responsável pelo Yodel Studio. A última apresentação em que me chamei Fianna foi a atração principal de um casamento de uma brasileira com um irlandês, selando a união dessas duas culturas tão distantes e tão síncronas. Apesar da separação, a amizade do supergrupo seguiu inabalada e continuamos nos encontrando, entre shows, para dividir e construir histórias etílicas.


A Fianna segue com sua mais sólida e duradoura formação, tocando em pubs, bares, eventos, festas e casamentos, colecionando uma legião cada vez maior de admiradores entusiasmados.


Show da Fianna no evento +Irlanda, realizado no Museu Da Imigração de São Paulo



Snow Set, single gravado em conjunto com a banda Harmundi.






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