• Leonardo Ramos

Não Há Estranhos – Uma Singela Ode À Música Irlandesa No Brasil



"Aqui não há estranhos, apenas amigos que ainda não se conhecem" - a célebre frase do poeta irlandês W. B. Yeats compõe uma peça de decoração importante para muitos pubs que conheci na Irlanda. Importante, dada a freqüência com que aparece e o lugar de destaque que ocupa em meio aos folclóricos mosaicos de quadros e placas que forram suas paredes. Geralmente, este lugar de destaque é próximo a uma determinada mesa onde músicos de todas as origens e profissões se encontram para, após um dia de trabalho, endireitar suas cabeças com boas cervejas e um uníssono fantástico de temas da Música Tradicional Irlandesa. Eu, então um jovem mochileiro levando sua tin whistle para conhecer suas origens, achei-me com os olhos anormalmente umedecidos na primeira vez que ouvi essa música ao vivo, como se houvesse, enfim, chegado à meca de algo que eu não sabia bem o que era. Ora, até então, o pouco que conhecia dessa música era o que consegui juntar, sozinho, internet afora - desde um tempo em que o YouTube ainda não era tudo isso e eu me considerava o único brasileiro que, muito por sorte, conhecia esse som.


Semanas depois desta experiência memorável, voltei à minha vida comum de estudante de cinema na (não tão) pacata cidade de São Paulo, não obstante motivado a procurar por outros músicos e entusiastas das tunes irlandesas por aqui.




Foi num dia particularmente monótono, trabalhando em uma produtora de filmes na Barra Funda, que me acometeu violentamente o impulso de interromper minhas atividades para buscar na internet por grupos ou pessoas que compartilhassem esse meu interesse incomum. Não haveria de ser a primeira pesquisa furtiva que eu conduzia sobre o tema - uma pesquisa cuja falta de sucesso era fatalmente determinada pelo algoritmo de busca de uma certa rede social, que não parecia ver motivo para dividir comigo a entusiasmada cena musical que andava fermentando por essas bandas desde o fim da década de 90. Pois. Ao que tudo indica, minha irredutível insistência finalmente convenceu aquela rede social a abrir o jogo: fui recompensado com um grupo online chamado Música Irlandesa No Brasil, criado por um Danny Littwin, violonista de uma certa banda de nome Oran.


Foi nesse grupo que descobri as lendárias Irish Sessions paulistanas, organizadas pela banda Oran, e que ocorriam, convenientemente, a poucos quarteirões do meu trabalho.


E nem meia dúzia de sessions bem se passaram quando a flautista daquela banda, chamada Mila Maia, convidou-me para tocar o pouco que eu sabia na minha tin whistle, junto com aquele mundaréu de músicos experientes e empolgados. Hesitei, meus esforços musicais tendo sido muito pouco apreciados até então. Toquei uma interpretação sofrível do slip jig “The Butterfly”, carne de vaca para os veteranos – e, contrariando minhas expectativas, fui parabenizado pelo meu esforço e fui convidado a tocar mais, e mais, e mais, e mais.


Eis que, antes que pudesse me dar conta, eu tinha um compromisso inadiável, inalienável, incontestável e imperdível todo fim de mês, naquela mesa do Deep Bar 611, entre todos aqueles músicos, aprendendo e compartilhando cada vez mais aquela música que me arrancou umidade dos olhos na Irlanda. Depois de mim, vi outras pessoas se aprochegando daquela mesa com o mesmo misto de cautela e fascínio, e peguei-me então pensando que conviria montar uma pequena obra audiovisual com todas as informações que eu gostaria de ter achado, lá atrás, sobre essa cena.


E então, com a minha ínfima paciência para preencher editais, juntei o pouco capital que tinha no bolso mesmo e saí entrevistando os músicos que eu conhecia e outros que me foram indicados. O baixo orçamento significou que apenas duas cidades, no Brasil inteiro, puderam ser contempladas no meu documentário: São Paulo e Rio de Janeiro - apesar disso, a essa altura já me era sabido que tunes irlandesas eram tocadas em muitas outras localidades. Cada entrevistado me colocava em mãos uma lista de outras tantas pessoas que haveriam de ser essenciais para o quadro que eu tentava pintar. Ao ponto de que o filme fez-se uma grande conversa de bar entre todos os músicos com quem tive o privilégio de trocar idéia - conversa, essa, que orbitava a música, e era periodicamente interrompida para dar espaço à música. Assim é, afinal, a experiência de uma Irish session.


E, enfim, cheguei invariavelmente à conclusão que o meu filme tanto fez questão de me mostrar: nada disso era sobre os músicos, mas sobre a experiência que todos eles vinham compartilhar naquela mesa de bar. Era sobre a música e sobre um crescente círculo de amizades que se formava e se alargava em torno de um algo maior. A música.


Hoje, essa conversa de bar prova-se uma amostra crescentemente menor do universo de músicos que tocam os temas tradicionais irlandeses no Brasil. Ainda assim, uma amostra sólida sobre uma verdade que transcende os nomes de cada indivíduo que, propositadamente, reservei apenas para os créditos.


Fica, por fim, mais uma menção de lembrança ao querido companheiro Tiago Connall, que tempera o filme com uma leveza e espirituosidade ímpares, que lhes eram características. Infelizmente, o Tiago nos deixou recentemente, devido à Pandemia do Covid-19, e deixa muitas saudades. Este artigo dedico, também, à sua memória.





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