Lançamentos: Harmundi anuncia seu último album

Atualizado: 30 de ago.


A arte da capa foi feita por este que vos escreve.


Primeira e única banda brasileira de música irlandesa psicodélica, a Harmundi lança hoje, dia 2 de agosto de 2022 o seu álbum mais aguardado: Harmundi 4. Produzido, gravado e mixado durante a Pandemia pelo nosso grande amigo e mentor, vencedor de múltiplos Grammys, Danny Littwin, esse é o nosso segundo álbum de estúdio - criado a partir de diversas composições originais e sets longamente trabalhados nos nossos shows ao vivo. Tivemos a honra de contar com a participação de Danny também no baixo, bouzouki e na guitarra elétrica ocasional. E recebemos de presente uma tune original do nosso mestre e parceiro Élcio Oliveira, que contribuiu também com seu furioso fiddle. Queremos mandar um abraço especial para o Danny e para o Élcio, pessoas incríveis sem as quais não teríamos descoberto e nos aventurado pelo universo da música irlandesa - e por isso mesmo quisermos incluir na nossa produção final.


Sim, este é um lançamento particularmente significativo para nós, porque é o nosso último. Com ele, despedimo-nos dos nossos amigos que acompanharam a trajetória da Harmundi até hoje. Essa banda foi muito mais do que apenas um punhado de instrumentistas tocando juntos: ela foi uma família e um lugar em que colaboramos para nos desenvolver musicalmente e aprender o que significa ser verdadeiro. Não há palavras que expressem o quanto a Harmundi nos ensinou desde que começamos a banda, em 2017. A última lição que aprendemos foi a do desapego: que o sentido da vida é seguindo o fluir natural das coisas, ao invés de nos agarrarmos a algo que algum dia foi caro, em alguma determinada circunstância. Nós tocamos muitos sets e tunes que foram criados de improviso no palco, aproveitados naquele momento por quem estava lá, e nunca mais foram tocados ou ouvidos novamente - e assim foi com essa entidade chamada Harmundi: ela sobrevive como um lembrete de vivermos sempre no aqui e agora. Ao nos separarmos dessa fase épica das nossas vidas, levamos conosco o aprendizado do que realmente significa seguir a brisa. Agradecemos de coração a todos vocês que estiveram conosco, ouvindo nosso som e assistindo os nossos shows - significa muito saber que nós fomos o mais verdadeiros e espontâneos que conseguimos, tocando o que vinha à mente, e isso ressoou com tantas pessoas. Encorajamos todos a continuarem seguindo suas brisas, como nós seguiremos!


A brisa está morta. Vida longa à brisa!






• ORIGENS DO ÁLBUM •


Economicamente, o primeiro semestre de 2019 foi uma carnificina. Mas, apesar disso, viver de música irlandesa psicodélica revelou-se uma alternativa sedutora para quatro jovens paulistanos que apresentavam-se sob o nome "Harmundi". Nessa época, sabiam muito pouco sobre música irlandesa (não que hoje saibam horrores), mas sabiam o suficiente sobre a energia poderosa que surgia quando punham-se a tocar tunes e improvisar sobre elas - e sobre o desejo de fazer dessa brisa uma atividade de sustento.


Corta para o dia 10 de março de 2020. Após um ano de muito suor, ensaios e luzes psicodélicas, a Harmundi comemora o aniversário da violonista e co-criadora Paula Camacho, bem como o próprio, com um show memorável n'O Corvo, casa onde construímos uma parte significativa da nossa carreira até então. Foi lá, na cena noturna de música alternativa do bairro da Santa Cecília, de São Paulo, que boa parte do nosso público paulistano descobriu a banda e viu seus longos e viajados sets surgirem e amadurecerem ao longo de muitas sextas feiras épicas. Foi lá, também, que o nosso amigo Danny Littwin, músico e produtor novaiorquino, vinha nos prestigiar com alguma frequência. Esse show foi especial não só por ter sido um aniversário duplo, mas porque seria o último show da história da casa. Pouco depois, a Pandemia deu cabo do pequeno negócio que começava a fincar raízes mais sólidas no solo paulistano. E do outro pequeno negócio, a Harmundi, deu cabo das apresentações e ensaios por quase dois anos.


Durante essa pausa, a banda se dedicou a rever todo o material que havia produzido até então: os shows ao vivo renderam o álbum "2019: A Breeze Odyssey" e o EP "The Last Corvo", enquanto as primeiras produções de estúdio foram concretizadas em "Um Orvalho Boreal" - e até mesmo gravações de ensaios que renderam longas e ímpares experimentações foram ouvidas e geraram "Whale Sessions". Somaram-se a isso três clipes e três singles gravados à distância, "SK7", "Op At The Lo" e "Fossil Set" - este último ganhando também um quarto clipe que ilustrou a história da banda, do início até o seu fim. E enfim, quando tudo estava produzido, bateu aquele vazio e a banda pôde lembrar-se de uma proposta feita pelo Danny Littwin lá atrás: produzir e gravar um novo álbum de estúdio.


Visto que o nosso primeiro álbum lançado foi o terceiro a ser gravado – e que o terceiro lançado foi o primeiro a ser gravado – batizamos esta nova produção de "Harmundi 4" – e ele reuniu um apanhado do que a banda andava fazendo até então, gravando alguns de seus sets favoritos que amadureceram nos shows d'O Corvo - e, ao final, produzindo um set novo feito sob os moldes pandêmicos de distanciamento e virtualidade. Reuniu, também, algumas das companhias que mais nos inspiraram e apareceram nesses primeiros anos de existência.


Harmundi 4 foi gravado, lapidado e mixado ao longo de toda a Pandemia. Neste meio tempo, alguns membros da banda mudaram-se para a Irlanda e decidiram que os dias dessa brisa estariam chegando ao fim. Ao fim e ao cabo, o lançamento do nosso último álbum vem como uma celebração dos anos de parceria, das amizades que conquistamos, do som que produzimos, e, então, é também um requiem para esta que foi nada menos do que a realização de um sonho - que inclusive segue nos inspirando a perseguir novas brisas.



• STARLINK •


TUNES: Foxhunters slip jig / Trip To Montevideo reel (Leonardo Ramos)

MÚSICOS: Paula Camacho (violão), Felipe Tupã Monteiro (bandolim), Leonardo Ramos (flauta transversal, Irish flute)


Numa noite particularmente agradável e sem mosquitos, nos achamos observando as estrelas no céu limpo do litoral paulistano. De repente, notamos uma fileira de estrelas muitíssimo bem alinhadas e equidistantes, e elas cortavam o céu desde um horizonte até o outro. Sem idéia do que estávamos testemunhando, assistimos ao estranho espetáculo por algum tempo, experimentando toda sorte de pensamentos e sensações que esta visão nos trazia, e ponderando o que haveria de ser. Eram dezenas – talvez centenas – de estrelas, e elas não paravam de surgir e seguir seu caminho, como se querendo nos confirmar: sim, é isso mesmo que vocês estão vendo. E então nos lembramos que não não éramos elfos na antiguidade, nem bardos medievais e nem vikings desbravadores dos oceanos – lembramos que somos um bando de jovens pós-modernos da cidade grande, e, por isso, munidos da incrível magia da internet. Uma rápida busca nos revelou do que se tratava nossa visão: um projeto encabeçado por Elon Musk, chamado Starlink, de trazer internet gratuita para TODO o planeta. E que estes satélites (sim, eram satélites!) que vimos eram apenas o começo de uma rede que deverá ter dezenas de milhares de unidades em sua completude. Pensamos com nossos botões que o céu que conhecemos quando crianças logo deixará de existir, e que as novas gerações provavelmente vão crescer acostumadas a ver o Starlink girando sobre nossas cabeças. E que os lugares deste mundo que ainda estão isolados da conexão com a World Wide Web não o serão por muito mais tempo. E que nesse momento testemunhávamos, pela primeira vez, um novo céu que seria o “novo normal” a partir de então.


Nesta mesma viagem, então, compusemos este set, que ganhou o nome de Starlink por carregar consigo a impressão que ficou daquela experiência.


Ele é introduzido por uma versão da Foxhunters jig tocada em modo lídio, e então trazida de volta para o ré maior antes de dar lugar à reel Trip To Montevideo – que nosso flautista Leonardo Ramos compôs na mesma época, em parte por ocasião da primeira gravação experimental do Starlink (lançada em "Whale Sessions"), e parte pela experiência de uma viagem solitária que fez à capital do Uruguai.





• SANTA MUIÑEIRA •


TUNES: Santa Morena choro / Muiñeira De Pontesampaio / Scottische Fran Havero

MÚSICOS: Paula Camacho (violão), Felipe Tupã Monteiro (bandolim), Leonardo Ramos (flauta transversal, Irish flute, piano), Danny Littwin (baixo elétrico).


Por ocasião da remoção emergencial de um siso, nosso flautista ficou impossibilitado de tocar flauta por um pequeno tempo, e, para não que isso não prejudicasse nossos shows n’O Corvo, chamamos o amigo flautista Sandro Bueno para substitui-lo temporariamente. Foi idéia dele, que também é muito versado na música galega, unir uma muiñeira (ritmo tipicamente galego) ao choro Santa Morena, de Jacó do Bandolim. E, já que nenhuma dessas duas “tunes” são irlandesas, completamos a tríade com uma sueca, a Schottische Fran Havero. Este set foi um dos mais bem recebidos nas nossas apresentações ao vivo, e tivemos bastante tempo para maturá-lo e lapidá-lo. Para complementar a gravação, nosso flautista se aventurou pelo piano na última tune, e contamos ainda com a participação especial de Danny Littwin no baixo.





• TOCANDO EM FRENTE •


TUNES: Tocando Em Frente (canção de Almir Sater) / Alberta's Waltz

MÚSICOS: Paula Camacho (violão, voz), Felipe Tupã Monteiro (banjo), Leonardo Ramos (Irish flute), Danny Littwin (guitarra elétrica, bouzouki).


Um dos últimos sets que montamos para apresentar ao vivo, ele teve vida curta nos palcos brasileiros. A canção original de Almir Sater é interpretada na bela voz de Paula Camacho, complementada pelo banjo de Felipe Tupã, pelo bouzouki e guitarra de Danny Littwin e pela flauta de Leonardo Ramos, que conclui a música com uma valsa nostálgica. Apesar de pouco apresentada no Brasil, Paula canta esta música frequentemente nas sessions de Galway, na Irlanda, onde mora desde novembro de 2021 - e meus amigos, vocês tinham que ver os irlandeses de queixo caído com as exóticas belezas do folk brasileiro, interpretadas por esta artista indelével.




• THE LAST PATIENT •


TUNES: Horizonto / The Last Patient (Elcio Oliveira)

MÚSICOS: Paula Camacho (violão), Felipe Tupã Monteiro (bandolim), Leonardo Ramos (flauta transversal, Irish flute), Elcio Oliveira (fiddle)


Criada especialmente para este álbum, este é um dos dois sets inéditos da banda, que segue cumprindo com seu compromisso de sempre trazer algo nunca antes ouvido. O moderno reel Horizonto, que abre o set, pavimenta o caminho e estende o tapete vermelho para a composição original que dá nome à faixa: The Last Patient é de autoria de Élcio Oliveira, fiddler e vocalista da banda Terra Celta. Élcio foi o primeiro contato que a nossa fundadora Paula Camacho teve com a música irlandesa, e foi ele quem deu a ela o caminho das pedras. Somos eternamente gratos a ele pelo carinho, pela amizade, pelas dicas, pelas parcerias e, finalmente, por esta tune incrível que ele nos deu de presente. Além de músico, Élcio também é médico, e foi um dos heróis medicinais da Pandemia, atendendo pacientes covídicos diariamente em Londrina - donde resultou o título de sua composição. Nessa gravação, ele também contribuiu com seu fiddle.





• DESOLATION ISLAND •


TUNES: Desolation Island (canção de Jed Marum) / Catharsis reel

MÚSICOS: Paula Camacho (violão), Felipe Tupã Monteiro (bandolim), Leonardo Ramos (flauta transversal, Irish flute, voz), Danny Littwin (baixo elétrico).


Outro set bastante azeitado no transcorrer dos nossos shows foi esta aglutinação da Catharsis reel com a canção Desolation Island, de Jed Marum. A letra é inspirada no livro Desolation Island, de Patrick O'Brian, que conta a história de um navio transportador de prisioneiros irlandeses que se vê perseguido em alto mar por uma embarcação holandesa, e então encurralado contra o continente antártico. A letra é do músico Jed Marum, que inspirou a nossa versão da música. Nesta gravação, contamos ainda com o peso do baixo de Danny Littwin.





• NIGHTMARE •


MÚSICOS: Paula Camacho (violão), Felipe Tupã Monteiro (bandolim), Leonardo Ramos (flauta transversal, Irish flute), Thomas Mourão (low whistle, berimbau de boca).


Nosso bandolinista sempre se orgulhou da facilidade que tem para dormir - e constantemente brinca dizendo que seria milionário se existisse algum tipo de trabalho que envolvesse dormir. Mas mesmo ele teve suas noites em claro durante a Pandemia. Raras foram as almas que não tiveram a sensação de estar vivendo um pesadelo quando o mundo inteiro parou por dois anos. Ainda que sobrasse pouco incentivo para artistas continuarem a produzir suas obras, parar por completo nem sempre é uma opção para quem trabalha por amor a um ofício. Isolados física e psicologicamente, os membros da Harmundi começaram a perseguir suas próprias brisas quando ficou claro que tocar música para uma tela de celular não seria um substituto para o sentimento de vida que tanto sentíamos falta. O pesadelo da Pandemia desdobrou-se também em pesadelos pessoais de cada um de nós, e resultou na decisão de terminar a banda - mas não sem antes nos despedirmos com um set épico, composto de quatro tunes originais, uma de cada um dos membros da banda, expressando seus pontos de vista sobre esse pesadelo.


INSOMNIA SLIDE - composto por Felipe Tupã, bandolim, em uma de suas noites de insônia pandêmica. Em suas notas, ele captura o sentimento angustiante das tormentas noturnas dos que não conseguem pregar os olhos, acometidos por pensamentos ansiosos e raivosos.


SLEEPY HELENA SLIP JIG - composição de Paula Camacho (violão e castanholas), que se inspirou na sua sobrinha recém nascida dormindo pacificamente o sono dos bebês. A tune transforma-se de um pegar no sono leve para uma entortação absurda de tonalidades, um pesadelo que se instaura mesmo nas mentes mais tranquilas.


PINCH YER NOSE AND BREATH - entediado e deprimido pela Pandemia, Leonardo Ramos (flautas) pôs-se a pesquisar e explorar possíveis antídotos para o mal estar que o afligia. Nessa tune de sua autoria, ele propõe uma das interessantes práticas que desobriu para não só neutralizar pesadelos como transforma-los em experiências psicodélicas muito enriquecedoras - a prática de sonho lúcido. Trata-se da habilidade (que é tão treinável quanto aprender um instrumento musical) de se ter plena consciência quando estamos sonhando – o que nos dá a possibilidade de fazer absolutamente qualquer coisa possível e imaginável, dado que a "realidade" que vivemos sonhando é produzida pelo cérebro tanto quanto quando estamos acordados, carecendo apenas de atualizações e correções constantes dos nossos órgãos de sentidos. Assim sendo, quando estamos lúcidos em um pesadelo, podemos muito calmamente conversar com o que quer que esteja nos assombrando e perguntar o que há de errado – e, em geral, o nosso inconsciente tem o maior prazer em tentar nos explicar, ainda que em termos um tanto enigmáticos. O nome da tune refere-se a uma técnica comum para testarmos se estamos sonhando ou não no momento presente: tampa-se as narinas e tenta-se inspirar-se por elas. Se o ar não entrar, você está acordado - se o ar entrar, você está sonhando. Se você por acaso fizer este teste hoje de noite e descobrir que está sonhando, você pode sair voando, visitar alguma outra galáxia, praticar um esporte ou uma cirurgia (há atletas e cirurgiões que fazem isso mesmo, e a neurociência mostra que funciona, porque estamos ativando as mesmas conexões neurais), reencontrar velhos amigos, trocar uma idéia com o seu inconsciente ou, quem sabe, compor uma tune! Com muito tempo livre em suas mãos, nosso flautista praticou essa arte longamente durante a Pandemia e, como resultado, compôs esta tune durante um sonho.


WAKEDOWN REEL - o set não estaria completo sem a contribuição do nosso membro fundador, Thomas Mourão, que concluiu esta brisa com um animado reel inspirado no acordar pós-pesadelo. Uma nova manhã trazendo novas possibilidades, mas para aqueles que passaram uma noite agitada, o sentimento é misto de renovação e uma certa derrota.





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Harmundi 4 está disponível para streaming em todos os Spotifys da vida, e download no Bandcamp.


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