• Leonardo Ramos

Harmundi: Música Irlandesa Psicodélica Feita Por Brasileiros


Qualifica-se psicodélico, hoje, um âmbito bastante expandido para além de aventuras alucinógenas adolescentes. O termo popularizado por Albert Hofmann, Aldous Huxley, Timothy Leary e Ram Dass (pais e avós do movimento de contra-cultura norte-americano dos anos 60), deriva do grego "psyche" (mente) e "delos" (manifesto). Sendo, pois, melhor entendido como característica daquilo que manifesta a mente: daquilo que é verdadeiro e desapegado de pretensões egoicas. Daquilo que é feito simplesmente pelo prazer de se fazer e que por isso promove, talvez acima de tudo, o auto-conhecimento.



Foi em 10 de março de 2017, no dia de seu aniversário, e ao som da querida dupla medieval Olam Ein Sof, que Paula Camacho convidou Thomas Mourão e este que vos escreve a formar um conjunto de música irlandesa para tocar as tunes que andávamos aprendendo nas Irish sessions que freqüentávamos. Em 17 de março, em meio a um torneio de Irish Car Bomb na festa de St. Patrick’s Day do Deep Bar 611, batizamos o conjunto de Harmundi – nome inspirado pelo intrigante tratado "Harmonices Mundi" do músico e astrônomo renascentista Johannes Kepler (recomendo fortemente assistir a esta palestra do baixista americano Adam Neely, que explica fenomenalmente toda essa parte filosófico-musical que nos encantou, chegando, inclusive, ao Harmonices Mundi).

À época, a banda era um hobby dos três flautistas, que tocavam sem muita versatilidade na linguagem irlandesa e, justamente, sem grandes pretensões profissionais. Era, antes de mais nada, um refúgio do estresse paulistano que se fazia sentir cada vez mais nas vidas de cada um: um designer, uma musicista e educadora científica e um cineasta que, ao final do dia, precisavam descansar os pensamentos com uma boa dose de música. Começou, então, como uma forma de cultuarmos e aprendermos sobre esse algo maior que a música irlandesa passou a ser para nós desde que começamos a freqüentar as Irish sessions do Deep Bar, onde nos conhecemos. Quando faltava-nos um espaço para ensaiar (ou quando carecíamos da compreensão dos vizinhos) reuníamo-nos para tocar nossa música em parques e botecos da Avenida Paulista. Na falta de pubs amadeirados e cervejas escuras, os primeiros sets da Harmundi foram compostos em mesinhas de calçada e regados de Originais e Serra Maltes em copinhos americanos.

E esses primeiros sets foram tão longe quanto combinações de tunes “carne-de-vaca” com canções como “House Of The Rising Sun”, “Hit The Road Jack” e “Wake Me Up”, do Avicii. Uma das nossas primeiras gravações, com o canal youtúbico Musicália Urbana, foi de um “Drunken Sailor” bastante piratesco, seguindo um pouco a tendência estética da “jovem guarda” da música celta no Brasil. Aos poucos, porém, foi ficando claro um importante insight sobre o que esta banda seria: não uma banda de irlandeses (e muito menos de piratas, vikings, bardos medievais ou coisa que o valha), mas, sim, de brasileiros que amam música irlandesa. Os nossos ídolos do Lúnasa, Flook, Altan, Chieftains, etc, soam como soam porque cresceram no ambiente em que cresceram, com as influências que ouviam. Nós, que crescemos no ambiente em que crescemos, e com as nossas próprias influências, não haveríamos de soar igual a eles – mas poderíamos, sim, soar como nós mesmos. Uma outra gravação deste mesmo dia, para o Musicália, foi o início do longo desenvolver de um dos nossos sets favoritos: o Swallow's Tail. Nervosos e com muito sono (a gravação foi de manhã cedo), não foi, nem de longe, a nossa performance mais memorável deste set – mas deu o tom de muito o que viria pela frente. Introduzido por um improviso sem tempo definido, mantemos o sonho de um dia tocar um Swallow's Tail de algumas horas – quiçá semanas. Abaixo, a primeira gravação de estúdio que fizemos dele, tempos depois.



Mantendo uma formação essencialmente (quase que estritamente) acústica, e sem dispensar o atento estudo da linguagem da música tradicional irlandesa, então, nos propusermos a combiná-la com toda a sorte de influências que trazíamos: do choro ao rock’n’roll, do progressivo à música clássica, do jazz fusion ao vaporwave. Outra das nossas primeiras gravações foi o single "Snow Set", uma dos nossos sets mais antigos, introduzido por uma tune autoral do Sr. Mourão, a Snow Reel, e que acaba se aventurando por territórios irlandeses e brasileiros – misturando a reel Fremont Center, de Liz Carroll, com o baião Prespada, de Sá Grama (que ficou conhecido na trilha sonora de "O Auto Da Compadecida"). Ela foi gravada nos estúdios Yodel, do querido Cesar Benzoni, e com a parceria da banda Fianna, com quem dividimos muitos palcos nessa época:



No início de 2019, já contando com a adição de Felipe Tupã no bandolim e banjo, e da Amanda Pinheiro no bodhrán, uma despretensiosa viagem à praia terminou de soltar as últimas amarras deste som harmúndico que lentamente tomava forma. Longe do estresse e das redes sociais, começamos a expandir o nosso limitado repertório de tunes com improvisos livres, com os quais já vínhamos flertando há um tempo, graças ao Sr. Mourão. Pois essa semente da improvisação que ele nos plantou deu bons frutos no fértil solo de experimentações harmônicas da sra. Camacho, talvez até potencializados pela completa falta de vergonha na cara deste que vos escreve, bem ritmados pela virtuosidade percussiva da sra. Pinheiro, consolidados e catalogados pelo entusiasmado sr. Tupã – que gravou todos os nossos ensaios e shows, dando-nos a possibilidade de recuperar alguns improvisos preciosos. Fez-se dessa experimentação toda, desenterrada das profundezas dessas mentes, o que resolvemos chamar de música irlandesa psicodélica. Desta viagem, ficou o álbum Whale Sessions, uma coleção ainda bem crua de improvisos longos e experimentações ousadas que muito nos remeteu às primeiras gravações daquela que nos foi uma influência crucial desde sempre: a banda do mestre Syd Barrett e seus Floyds. Pessoalmente, nutri uma predileção por uma certa faixa que nomeamos “Cooley’s Breeze”, e acabei produzindo este clipe para ela – me valendo de muitas e muitas horas de render para a seqüência final, gerada pelo algoritmo de Deep Dream da Google:



A Harmundi adquiriu uma dimensão bastante home-made em seus primeiros anos. Ainda inspirando-me na história do Pink Floyd (e aproveitando um diploma de cineasta que andava juntando poeira), investi bastante no aspecto visual da banda desde os nossos primeiros shows, com um conjunto de luzes psicodélicas que surpreendeu mesmo os palcos mais veteranos em que tocamos. O logotipo e conceito visual foram criados pelo sr. Mourão, designer de mão cheia que é. O som dos nossos shows era operado pelo sr. Tupã, que também editou e mixou muitas das nossas faixas. Ocupei também o marketing, a produção de conteúdo visual e as vendas de shows, e o financeiro dividi com a sra. Camacho – que ainda nos guia pelo universo musical com sua formação no Conservatório de Tatuí e arregaça as mangas atrás de fomentos e editais de cultura para a banda.



Ainda às nossas custas, gravamos um primeiro álbum de estúdio (Um Orvalho Boreal) – o estúdio de temperaturas infernais que construímos no apartamento em que morei e sediei muitos ensaios. Gravar este álbum foi uma operação de um fim de semana bastante intenso, em que cada take era separado do outro por alguns minutos de janela aberta e secagem do suor excessivo – apesar disso, como estávamos aprendendo tudo enquanto fazíamos, muitas coisas precisaram ser regravadas posteriormente. Deste álbum, escolhemos a faixa "Morning Chicken", que sempre tocávamos de saideira nos shows, para produzir um clipe que, de alguma forma, representasse visualmente o nosso "Irish psicodélico". O clipe, que pode ser visto abaixo, também foi completamente home-made, aproveitando imagens que eu havia filmado anos antes em trabalhos de documentário de natureza, e dando para elas um novo significado com a edição mais gaiata que consegui conceber. Ele estreou na edição virtual de 2020 do Festival Celta Brasil.



Antes mesmo de lançar o Orvalho, já colecionávamos gravações ao vivo (2019: A Breeze Odyssey) de longos improvisos que jamais seriam repetidos novamente. Assim tentamos concretizar este sonho de uma música do presente, que chama o espectador para prestar atenção na experiência do agora - única, irrepetível e eterna como é o tempo presente que hoje tão raramente vivemos.




Uma carreira artística profissional no Brasil não é, sabemos bem, uma empreitada tranquila. Apesar da surpreendente exposição e crescimento que tivemos graças aos palcos da Milord Taverna (Campinas), do Johnny Hudson Burger (Guarulhos), do Deep Bar 611 (São Paulo - Barra Funda), do Cerveja Artesanal São Paulo (São Paulo - Vila Madalena), do Festival Celta Brasil (Campinas), das Celebrações Do Dia Do Orgulho Pagão (São Paulo), do Finnegan’s (São Paulo - Pinheiros) e do tão-saudoso O Corvo (São Paulo - Santa Cecília), nos vimos perdidos cada vez mais na ameaçadora floresta escura do inconsciente. Para além de um governo perdidamente avesso à cultura, algumas das maiores pedras no nosso caminho não eram de forma alguma tangíveis: estresse, burnout, depressão e ansiedade. Aflições que já atingem proporções pandêmicas no mundo pós-moderno, quase como a grande Pandemia de 2020 que brutalmente freou o progresso criativo e profissional que vínhamos conquistando.

Mas a decorrência natural de uma morte, ainda que simbólica, é a vida! Nos tempos pandêmicos aproveitamos para dar uma atenção especial aos nossos estudos musicais, lançar os álbuns (que ainda estavam pendentes), e produzir uma pequena seqüência de singles que nos ensinaram ainda uma porção de coisas sobre gravações independentes – alguns deles ainda por vir! Tivemos a honra de tocarmos, nos palcos e gravações, com músicos que admiramos e nos ajudaram a chegar onde estamos: Sandro Bueno, Ivan Cavalheiro, Nataly Macías, Raiza Klippel, Adriano Banshee – e, nos lançamentos futuros, Danny Littwin, Élcio Oliveira, Mila Maia, Cesar Benzoni, e sabe-se lá quem mais! Se não podemos sequer prever como será o som de um próximo show da Harmundi, decerto não podemos prever como a banda soará nos próximos tempos e com quem tocará – se me for escusado pausar para uma breve reflexão pessoal sobre a banda, diria da satisfação tremenda que é estar hoje tocando uma música que, 5 anos atrás, eu não me imaginaria capaz de fazer. Que tenhamos ainda muitas oportunidades de tocar sons que hoje não imaginamos ser capazes de tocar.

Vida longa à brisa!



A Harmundi segue produzindo suas brisas ativamente com Paula Camacho no violão, voz e flauta transversal; Felipe Tupã no banjo e bandolim; Thomas Mourão na low whistle, tin whistle e na percussão ocasional; e Leonardo Ramos na Irish flute, flauta transversal, tin whistle, voz e no piano ocasional.




www.harmundi.art


instagram.com/harmundicelta





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