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Around the House: KÍLA


No backstage, editores d'O Pint Diário com James Mahon e sua esposa Francine, que é brasileira.

No dia 30 de dezembro de 2022, tivemos a oportunidade única de entrevistar James Mahon, gaiteiro e flautista da banda Kíla – uma fusão escandalosamente pós-moderna da mais extraordinária música tradicional irlandesa com o mais amplo espectro de influências mundiais que se pode conceber. Com uma formação de uilleann pipes, flautas, fiddle, bandolim, guitarra elétrica, bodhrán, baixo elétrico, bateria e toda uma sorte de percussões, o Kíla é certamente uma dessas bandas que leva tudo para o próximo nível – inclusive o publico, que é erguido a um patamar efervescente de energia coletiva. A entrevista aconteceu momentos antes do tão aguardado espetáculo que fizeram no Monroe's Live, uma das maiores e mais icônicas casas de show da vida noturna cultural de Galway, na Irlanda. Uma noite memorável, sem dúvidas, que foi aproveitada e competentemente fotografada pelo nosso editor Leonardo Ramos para este artigo.




O PINT DIÁRIO - Quais são as expectativas pro show de hoje à noite aqui no Monroe’s?


JAMES MAHON - Nós tocamos em Galway provavelmente duas vezes por ano e é sempre incrível porque aqui tem sempre uma energia muito forte. Como vocês podem ver, ali está o palco com a pista logo em frente e atrás da pista há dois níveis – então, do palco, nós estamos olhando pra três níveis diferentes de público. É ótimo!




PINT - Galway é uma cidade muito musical, especialmente se tratando do trad. Há alguma diferença entre tocar em Galway e outras partes da Irlanda?


JAMES - Aqui você reconhece muitos músicos que vêm ao show. Eu acredito que muita gente volta pra nos ver nessa época do ano. Eu penso que ir a um show do Kíla na época do Natal é uma coisa ritualística… especialmente no show de Natal de Dublin, que agora acontece em Janeiro, mas costumava acontecer logo antes do Natal, muitos irlandeses que vivem fora e voltam pra casa no Natal se encontravam no show de Natal do Kíla. Se tornou um lugar de encontro. Quando eu era criança, meu irmão me levou em um show de Natal do Kíla e eles faziam duas noites seguidas no Vicar Street, que é uma casa de shows grande em Dublin. Mas os tempos mudaram, sabe? Ainda mais. com o Covid, agora é difícil encher a casa duas noites seguidas.




PINT - Como foi o retorno depois do COVID pra vocês?


JAMES - Tem sido bastante bom porque nós temos feito as coisas de um jeito mais inteligente. Nós não fazemos mais tantos shows; fazemos menos com cachês melhores, e isso nos dá a oportunidade de ir atrás de incentivos financeiros ou sentar e ser criativo. Então nós temos mais tempo para criatividade e para a família. Nós temos feito, talvez, um quarto a menos do que fazíamos por ano, o que seriam aproximadamente 25 shows a menos… o que é significativo.




PINT - Vocês fizeram algumas trilhas sonoras e foram nomeados para prêmios, também ganharam o IFTA pelo filme ‘Arracht’. Como é o processo criativo para as trilhas sonoras e no que é diferente de gravar álbuns e fazer shows?


JAMES - Toma bastante tempo. Primeiramente, as duas trilhas que foram nomeadas foram a do Wolfwakers, uma animação do Cartoon Saloon, que foi nomeada pro Oscar, e depois com o ‘Arracht’, que é um filme em irlandês, nós ganhamos o IFTA, que é o Irish Film and Television Awards. Foi uma honra enorme! Nós nos envolvemos muito com o projeto por causa do conteúdo. A história do filme é sobre a fome e o domínio britânico na Irlanda. Então, ganhar uma premiação pela música foi muito poderoso. Em ambos os projetos, nós assistimos cortes do filme para exemplificar como a jornada do filme se desenvolvia, e nós assistimos várias vezes para entrar profundamente na atmosfera e tentar ser a pessoa em cena… tentar criar música, criar sons, criar atmosfera que fosse representativo do clima que estava ali. Nesse filme a trilha e os efeitos sonoros foram bastante tensos, sombrios e melancólicos. Para o Wolfwalkers, nós trabalhamos com o Cartoon Saloon e com o compositor francês Bruno Coulais. Foi um trabalho em equipe, ele escreveu as partes para algumas seções e nós escrevemos melodias para outras. Então, se ele tinha uma parte com a orquestra e sentia falta da energia ou da animação que ele estava buscando, nós colocávamos a nossa parte e trazíamos as cores que ele talvez não tivesse conseguido na pressão de gravar uma orquestra em estúdio. Nós sentavamos pra assistir as seções do filme e tocávamos o que achávamos que ia funcionar. É muito divertido! Cada um pegou um instrumento de percussão para fazer os cachorros correndo na floresta, um monte de efeitos de pecussão como se fosse uma corrida, coisas desse tipo. Nós sempre fazíamos enquanto estávamos assistindo. Nunca foi escrever em um papel e ficar preso naquilo. A idéia é ser parte daquilo para ter uma energia interativa. É a mesma coisa que nós fazemos no palco: se vocês nos dão energia, nós devolvemos energia. Se vocês não nos dão energia, é muito difícil tocar. Se tiver um cara de pé no canto com os braços cruzados, nosso trabalho é fazer ele dançar. Se ele continuar lá de braços cruzados, depois de algum tempo eu vou dizer pra ele “sai do meu campo de visão!” (risos)




PINT - Como é o processo criativo da banda? Vocês ensaiam/improvisam juntos pra ter novas ideias?


JAMES - Tem sido bastante difícil já que nós vivemos em partes diferentes da Irlanda. Então quando isso acontece é muitas vezes durante a passagem de som. Por exemplo, hoje eu trouxe uma nova melodia e começamos a tocar na passagem, e está evoluindo. Então, o que era uma melodia com um trecho de canção tem uma nova subseção que acabamos de desenvolver, onde fazemos uma “conversa” entre a guitarra e a gaita de foles. Isso nós acabamos de testar antes do show [e tocaram no show]. Sabe, cada um de nós tem uma vida, família e coisas que estão no caminho para nos juntarmos, mas quando nos juntamos é sempre ótimo. Nós geralmente temos ensaios agendados por volta de 5 vezes por ano… mas para fazer acontecer é chegar cedo e fazer a passagem de som, porque de outra forma não acontece. Para nós é bastante importante testar coisas sozinhos e depois testar com o público e ver como ele responde.





PINT - Eu suponho então que as coisas que vocês gravam foram bastante tocadas ao vivo em shows.


JAMES - Sim, isso pode levar alguns anos. Há algumas coisas que nós tocamos por um tempo e pensamos “ah, não presta” e paramos de tocar… e tempos depois resgatamos. Eu acho que o jeito que a banda funciona é que a música que vai pro album é a música que realmente funciona nos shows. E desde o Covid, nós tivemos a oportunidade de colaborar com diferentes tipos de artistas. Por exemplo, tivemos companhias de circo, e agora no dia 27 de fevereiro nós vamos tocar em um grande show no Dublin TradFest com uma banda de metais de 8 integrantes, é um trabalho contínuo.




PINT - Vocês se definem como World Music e não Irish Trad. É isso mesmo? Como você definiria a banda?


JAMES - Eu diria que um ou dois de nós usaria World Music para definir a banda. Eu acho que o melhor seria sermos definidos como Kíla, porque cada um de nós tem as suas referências e isso tudo se mistura no grupo. Então, é World Music porque nós temos influências de instrumentos globais, e quando nós viajamos mundo afora, nós ouvimos a música tradicional, por exemplo na Malásia, e nos inspiramos em alguma coisa muito bonita de lá que pode influenciar uma música nossa. Então é World Music.




PINT - Você conseguiria pensar em quais seriam as 5 maiores influências da banda?


JAMES - Eu acho que se você perguntar isso para os oito membros da banda, você vai ter respostas diferentes. Mas por exemplo, há uma banda bretã chamada Gwerz e eles foram uma grande influência do Kíla nos primórdios e é daí que a faixa Gwerzy vem. Então é uma influência bretã. Depois, o Fela Kuti é uma grande influência na percussão groovada. È uma pergunta difícil porque as respostas seriam diferentes.





PINT - E quais seriam as suas grandes influências pessoais?


JAMES - Para mim, Moving Hearts tem uma grande influencia em como eu abordo tocar com uma banda, porque se eu sentar pra tocar tunes em uma session eu toco de forma bem diferente. Quando eu toco com uma banda, eu toco para o show, é como vestir um figurino diferente. É uma abordagem mais solta. Eu também sempre curti escutar Dan Ar Braz, Fela Kuti e recentemente me apresentaram o Gwerz, então foi legal ouvir as influências antigas. Há um monte de outros exemplos. Essa é a dificuldade em ter Spotify. Nós não temos mais um album para ter nas mãos. É só “ouve isso” e depois desaparece no nada. Então é difícil porque eu tenho ouvido muita coisa boa nos últimos anos e eu não sei mais onde está. Essa é uma desvantagem de um colecionador de música, a não ser que você tenha cópias físicas dos álbuns. Eu acho importante, sabe? Você tem a sensação de uma coisa real e vê o trabalho que o artista colocou ali, ao invés de só apertar um botão no Spotify, tocar por alguns segundo e pular para a próxima, é isso que todo o mundo faz. Quando você coloca um álbum pra tocar você pode sair dali e ir lavar a louça e realmente absorver a música… para mim é muito mais especial. Mas agora eu tenho que sentar no carro porque eu não tenho um CD player mais (risos).





PINT - Você tem alguma influência da música brasileira, sendo casado com uma brasileira?


JAMES - A música brasileira é maravilhosa! Provavelmente a música mais bonita que eu já ouvi. Eu lembro de estar no Brasil e ouvir dois caras tocando violão em um restaurante… por um instante eu até me esqueci das pessoas com quem eu estava por causa dos músicos. A energia na música brasileira é incrível. Eu também fui ao Carnaval e ver milhares de pessoas se movendo e dançando na mesma sintonia é surpreendente! Então sim, eu sou influenciado pela música brasileira e pelas pessoas. A primeira vez em que estive no Brasil, eu vi as pessoas lá com muita paixão pela música tradicional irlandesa e com muita vontade de tocar com o sotaque irlandês, isso mexeu muito comigo e me levou a uma conversa com o Alex Navar para que algo fosse feito e vocês tivessem mais desculpas para se juntar, eventualmente isso se tornou a Comhaltas Brasil. Meu contato com o Alex começou há muitos anos e no começo eu dizia “O Brasil é tão longe… provavelmente eu nunca vá para lá”, Porém… mal sabia eu! Eu tenho ido mais regularmente do que imaginava ir.





PINT - Há muitos brasileiros agora que ouvem falar da música tradicional irlandesa e começam a aprender, por exemplo na tin whistle, que é possivelmente o instrumento mais fácil de se conseguir por lá. O que você diria para essas pessoas?


JAMES - Se você curte, continue! E ouça! Ouça muita coisa diferente. Eu acredito que muitos músicos irlandeses que tocam trad, especialmente os mais jovens, não escutam tanta música quanto eu ouvia quando tinha a idade deles. E eu aprendi tanto ouvindo um monte de coisas diferentes… outra vez, não sei se o Spotify e o Youtube ajudam. Anos atrás, alguém chegaria para você com um album dizendo “ei, ouça isso!” e você iria para casa animado para colocar o album para tocar e escutaria com cuidado. Outra vez, tem sido muito difícil escutar coisas atentamente hoje em dia. Mas tente escutar. Você pode tentar usar aquele aplicativo de rádios globais e sintonizar em uma rádio irlandesa. É dessa forma que se pega o sotaque, sabe? Você escuta e conversa com outras pessoas.





PINT - Isso nos leva à forma que nós geralmente aprendemos música irlandesa no Brasil, que é frequentando sessions. Aqui também, mas há shows, concertos, rádios, pode-se ter um professor, enquanto no Brasil são basicamente só sessions. O quão importante são as sessions e o que você diria para esses brasileiros?


JAMES - Bem, as sessions são a coisa mais importante, é o coração. É aquele momento em que os músicos se sentam juntos e tocam. Fazer uma aula é praticamente como treinar para uma partida de futebol e a session é o momento de jogar a partida. É o momento de estar com outras pessoas e compartilhar, e é isso que essa música é. Então, continuem tocando em sessions! Tocar junto com outros músicos é a coisa mais importante, e não aprender algumas de tunes e ir para o palco e ser um showman… isso costuma vir com o tempo. Se você é fluente na linguagem, isso acontece. Recentemente eu não tenho tido a oportunidade de ir a sessions tanto quanto eu gostaria, mas sempre que eu vou é maravilhoso e me lembra de que eu devia fazer isso mais vezes. Sentar com amigos e tocar por prazer. Porque praticar e tocar sozinho em casa ou sempre com as mesmas pessoas pode ser cansativo. Inclusive, tentar trazer pessoas que não tocam trad para a session – pode ser muito interessante de ver o que eles trazem.





PINT - Qual o seu album do Kila preferido?


JAMES - Eu acho que o ‘Mind The Gap’ é importante para mim porque, quando eu estava começando a aprender flauta, Emer Mayock, que é uma flautista, estava morando com o meu irmão e me deu uma fita cassete que tinha o album dela em um lado e o ‘Mind The Gap’ do Kíla do outro, por isso é um álbum que eu tenho muito carinho. Eu fui uma criança que escutava Kíla, o primeiro show que eu assisti foi do Kíla e agora eu faço parte do Kíla, é muito especial! E isso aconteceu duas vezes, porque antes de entrar no Kíla eu estava tocando com o Afro Celt Sound System, então já aconteceu antes. Outro álbum que eu quero frisar é o que está pra sair em breve com a banda de metais, vai ser incrível!







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