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IRISH SESSION 101 – Tudo o que você precisa saber para começar a tocar trad no Brasil e no mundo

Conquanto o assunto seja da maior relevância para os amantes da música irlandesa, o assíduo leitor d'O Pint Diário achar-se-á merecedor de uma breve clarificação a respeito da potencial redundância deste artigo, dado que já falamos muitas vezes sobre sessions. Temos abordagens autobiográficas, audiovisuais, pragmáticas, técnicas e até uma série de crônicas com experiências pessoais dos nossos editores e colaboradores, todas compondo as várias dimensões da experiência de sentar-se em torno de uma mesa para tocar música tradicional irlandesa com outras pessoas. Dessa vez retornamos mais uma vez ao tema, inspirados pela aproximação da 5ª Irish Session Nacional Brasileira, e buscando falar diretamente com você que tem pouca ou nenhuma experiência e talvez aprecie uma norteada básica sobre como começar a tocar numa session.


Belíssima pintura de Bill O'Brien que mensalmente anuncia as Irish Sessions do Rio de Janeiro.


• O QUE É UMA IRISH SESSION •


Em linhas gerais uma Irish session é uma roda de músicos que se reúnem para tocar temas da música tradicional irlandesa, que chamamos de tunes. Como se fosse uma roda de choro, uma roda de pagode, uma jam de jazz – mas cada um desses estilos musicais é um “idioma” específico que os músicos vão lá para conversar, e o trad irlandês é seu próprio idioma. Aliás, ao contrário do que muitos podem pensar, a música tradicional irlandesa é um gênero musical bastante moderno, que, tendo raízes vindas principalmente do século XIX, continua em constante desenvolvimento estético, e propaga-se cada vez mais pelo mundo.


Uma session é, então, um tipo de “jogo”. E, como em todo jogo, existem procederes recomendados que facilitam o proveito de todos.





• COMO PROCEDER EM UMA SESSION •


  • DÊ BOA NOITE: Chegando na session, aja com educação e respeito: apresente-se, dê boa noite e pergunte se pode se juntar para tocar. Trata-se de uma conversa, ainda que com instrumentos, e da mesma forma como não é cortês chegar num grupo de pessoas e se infiltrar no papo delas sem antes se apresentar, o mesmo vale para sessions. Dificilmente alguém vai te falar que você não pode se juntar, mas dá-se MUITO valor para quem chega com educação e respeito.


  • OUÇA: As pessoas sempre têm muito gosto em ouvir o que você tem a dizer quando você ouve o que elas estão dizendo. Não saia tocando desembestadamente. Tome seu tempo para ouvir e absorver a música antes de começar a tocar. Pode ser que você conheça a tune, mas cada session imprime nela uma levada e personalidade própria, e você deve seguir esse fluxo geral sem se sobrepor.


  • SETS: Dessa forma organiza-se a dinâmica dos temas em uma session: um músico “puxa” uma tune, e quem sabe tocá-lo pode tocar junto. A tune é repetida quantas vezes o músico julgar cabível, o que geralmente varia de duas a cinco vezes (mas pode estender-se ainda mais). Quando está pronto para mudar para a próxima tune, este músico sinaliza para os outros com o olhar, com a cabeça, com o pé, ou, mais comumente gritando “HUP!” É importante chamar atenção para dois pontos aqui: primeiro, não se puxa uma tune no meio do set que outro músico está conduzindo, espera-se o silêncio para propor um tema novo; e segundo, não se deve confundir “HUP” com “IHA”, ou outras manifestações munidas da vogal “I” que são emitidas por músicos extasiados ou ébrios. A questão de quem puxa os sets varia de session para session: em algumas, quem mais puxa sets são os hosts (as pessoas que organizam, lideram e mantêm a peteca no ar), em outras isso é mais democrático, algumas rotacionam a vez de puxar ao redor da mesa, e muitas vezes é comum que novatos sejam convidados pelo host a puxar um set que goste de tocar. Entre um set e outro, permita um momento de silêncio e conversa – isso é importante também.

  • PERGUNTE: Sinta-se à vontade para perguntar acordes, ritmos, tons, nomes de tunes e mesmo puxar tunes numa velocidade que lhe for confortável. Ainda que você não pergunte, os músicos mais experientes podem te abordar para corrigir algum erro seu, ou dividir com você alguma orientação pertinente. Não leve isso a mal, não se sinta intimidado e não pare de tocar: na maior parte das vezes, o intuito deles é sempre te ajudar e te ensinar a tocar cada vez melhor. Como em tudo que envolve seres humanos, às vezes damos o azar de sentar do lado de algum músico mais azedo A session é, sem dúvidas, a melhor escola de música irlandesa que há.


  • AFINE: Nas palavras de Danny Littwin: a afinação não é opcional. Além de afinar antes de começar a tocar, vale lembrar que, ao longo da session, os instrumentos aquecem (e umedecem, no caso dos sopros), então é necessário reafiná-los periodicamente. Para os flautistas e whistlers, existe uma questão de atenção redobrada: a afinação destes instrumentos flutua muito de acordo com a intensidade do ar e a posição da embocadura – não basta (na verdade, eu diria que em certa medida é até irrelevante) afinar antes de tocar e pronto, é preciso estar constantemente prestando a atenção e corrigindo a sua afinação com relação aos outros instrumentos. Essa informação me foi confirmada por James Mahon, flautista da banda Kíla que nos deu alguns belos workshops de Irish flute pela Comhaltas Brasil: segundo ele, o mundo ideal para o flautista é desenvolver essa percepção e habilidade de se estar constantemente corrigindo a afinação – e se desapegar do afinador, pois ele pode enganar se, na hora de afinar, soprarmos num ângulo diferente (com a cabeça abaixada para olhar o afinador no celular, por exemplo) ou com um fluxo de ar diferente (mais fraco para não incomodar os outros, por exemplo).


  • ANDAMENTO: Preste sempre atenção ao tempo e tome cuidado para não sair dele. Não acelere e nem freie um set em andamento. Se alguém começar a bater o pé com muita veemência, isso pode significar que essa pessoa está chamando atenção para algum desencontro rítmico. É normal que a empolgação e a experiência dos músicos, assim como a natureza dançante da música, geralmente leva-os a tocar muito rápido, mas isso não é obrigatório! É sempre preferível tocar lentamente do que fora do ritmo.


  • MELÓDICOS (flautas, fiddles, gaitas, whistles, banjos, bandolins, concertinas, etc): se você se sentir confortável, e souber, pode fazer variações sobre as melodias. A música irlandesa tradicional não dá tanto espaço para improvisos como os do jazz – mas isso não significa que não há espaço para criar em cima das tunes. Dizem os irlandeses mais experientes que a graça reside, justamente, em manter o uníssono sem jamais tocar a mesma frase exatamente do mesmo jeito. Mas não se preocupe com isso: o que se espera é que você toque a melodia com os outros. Variações vão surgir sob os seus dedos quando elas estiverem prontas.


  • HARMÔNICOS E RÍTMICOS (violões, baixos, bodhráns, acordeões, colheres, meias-luas, batedores de pé): para evitar dissonâncias e desencontros, recomenda-se que se comuniquem entre si e sigam uns aos outros. Originalmente, as tunes eram tocadas exclusivamente por melódicos, e os harmônicos foram introduzidos só bem mais recentemente. Por isso, a harmonia é “improvisada” na hora e, então, é costumeiro que apenas um harmônico e um bodhrán toque por vez, e que os dois conversem bem. Se mais de um for tocado ao mesmo tempo, é importantíssimo que os um harmônico determine a harmonia e os outros o sigam. Por exemplo, se um violão começar a fazer a harmonia, preste atenção em que acordes ele está fazendo, e siga-o. Ou, se um bodhrán começar a fazer o ritmo, prestem atenção e siga este ritmo. Sim, a nossa editora Paula Camacho, exímia violonista de session que é, já escreveu um belo artigo sobre casos em que dois violões fazem harmonias diferentes, mas mantêm-se coesos por estarem absolutamente ancorados e a serviço da presente tune – o que significa que sim, harmônicos e rítmicos devem ter pelo menos um conhecimento básico do caminho melódico de cada tune. NUNCA, JAMAIS, EM HIPÓTESE ALGUMA traga um par de colheres para bater aleatoriamente, ou saia fazendo ritmos vagamente medievais em tambores xamânicos ou uma meias luas com platinelas (nada contra os instrumentos em si), pois os ritmos irlandeses são muito específicos e não têm absolutamente nada a ver com música medieval, fantástica, com trilhas sonoras ou coisa que o valha.


  • OUVINTES: lembre-se que a session é feita pelos músicos e para os músicos. Cantar junto, bater palmas e pés são bem vindos, mas evite tratá-los como uma banda contratada, por exemplo fazendo muitos pedidos de músicas que você quer ouvir. Peça, mas não se surpreenda se não tocarem. Se for bater o pé junto, preste atenção no andamento.


  • INSTRUMENTOS: O Pint Diário tem uma série de artigos sobre os diversos instrumentos que são tradicionalmente usados na música irlandesa: tin whistle, flautas irlandesas ou de sistema Boehm, fiddle (violino), banjo tenor, bandolim, violão, concertina, acordeão, gaitas de fole irlandesas (surpreendentemente, as escocesas não se encaixam por terem um volume muito alto e uma afinação diferente), bouzoukis, harpa, bones, colheres, bodhrán, gaitas de boca, enfim. Dificilmente um instrumento será rejeitado numa session. Para além dos mais tradicionais que mencionei, já vi violas caipiras, violões tenores, clarinetes, cellos, contrabaixos, banjos de 5 cordas, duduks armênios, gaitas de fole galegas, tambores xamânicos, zabumbas, ocarinas, panderetas, escaletas… em geral, a grande questão não é o instrumento em si, mas como ele é tocado. O único instrumento que já vi rejeitado de prontidão foi o kazoo.


  • REPERTÓRIO: Com alguma margem para expansões, o repertório das Irish sessions gravita o universo dos temas e canções irlandeses, tradicionais e contemporâneos: jigs, slip jigs, reels, slides, hornpipes, polkas, valsas, drinking songs, rebel songs, baladas… este repertório não costuma abranger temas medievais ou derivações cinematográficas como o tema do Hobbit – na dúvida, perguntar nunca ofende! Não existe um "setlist" de session, e não existem sets pré-determinados. Faz parte da diversão combinar tunes cada vez de uma forma diferente a fim de criar narrativas musicais interessantes, com contrastes de tons e fraseados. Algumas tunes combinam de maneira mais óbvia, outras formam combinações bem interessantes e inusitadas e outras dificilmente combinam. Dado que o universo de todas as tunes do trad é vastíssimo, cada session acaba desenvolvendo o seu próprio espaço amostral de temas que costumam ser recorrentes por serem comuns ao repertório dos músicos que lá frequentam – o que de forma alguma é uma receita, cartilha ou enquadramento do que se deve tocar, mas apenas um fenômeno natural de flutuação de probabilidades de tunes serem mais ou menos tocadas, o que ajuda inclusive a nos nortear sobre quais tunes tirar. Quando começamos a tocar numa session, é comum não conhecermos muitas das tunes dela, mesmo já tendo anos de experiência tocando em outras sessions – por isso é legal ir com frequência às mesmas sessions e ir se familiarizando com o repertório daqueles músicos. Com alguma experiência, a gente acaba tirando as tunes de ouvido só de ouvi-las com tanta frequência.





• PRIMEIRAS TUNES •


Apesar de o repertório variar bastante de session para session, algumas tunes são mais "carne de vaca" do que outras, e começar os estudos por elas pode ser uma boa estratégia para sempre ter uma carta na manga que com certeza será reconhecida e acompanhada em qualquer lugar do mundo. Elaboramos uma breve listinha com algumas dessas tunes mais populares, destacando em negrito as que talvez sejam mais fáceis para tirar e linkando cada nome à sua respectiva página do site TheSession.org, com partituras e áudios midi que facilitam o aprendizado. Todas elas podem ser tocadas por um instrumento afinado em D. Neste artigo, falo sobre técnicas para tirar tunes e discuto um pouco a questão de usar ou não partituras.

Banish Misfortune (jig - D mixolídio)


Banshee (reel - G)


Blarney Pilgrim (jig - G)


The Butterfly (slip jig - Em)


Cooley's (reel Em)


Drowsy Maggie (reel Em)


Earl's Chair (reel - Bm)


Farewell to Whalley Range (slip jig - F#m)


Gravelwalk (reel - A dórico)


Inisheer (valsa - G)


Irish Washerwoman (jig - G)


John Ryan's (polka - D)


Kesh (jig - G)


Kid On The Mountain (slip jig - Em)


King Of The Fairies (hornpipe - E dórico)


Lark In The Morning (jig - D)


Morrison's (jig - E dórico)


Musical Priest (reel - Bm)


Out On The Ocean (jig - G)


Si Beag Si Mor (valsa - D)


Silver Spear (reel - D)


Swallowtail (jig - E dórico)






• PARA PRATICAR •


Cada músico estuda e pratica da sua maneira, e não existe jeito certo desde que o resultado faça jus à gramática da música tradicional irlandesa e desde que seja observada alguma clareza, precisão e bom andamento das tunes tocadas. Pessoalmente, tenho dois níveis de estudo que alterno:

  • Lento (50 a 60 bpm com metrônomo) e repetitivo (10 a 20 vezes, como se fosse um mantra) de uma tune específica – o tipo de coisa que os vizinhos adoram e enche a família de deleite. Isso ajuda a desenvolver a precisão e a segurança que a tune pede para que então se possa tocar mais rápido e começar a fazer variações.

  • Com uma session virtual, que pode ser tocar com vídeos de YouTube ou playlists de Spotify por exemplo. Isso ajuda na prática de acompanhar outros músicos que podem ter jeitos de tocar e velocidades diferentes dos que são confortáveis para nós, na passagem de uma tune para a outra, na consolidação do repertório e nos ajuda a voltar pro bonde quando a gente erra alguma coisa no meio duma tune.

Com base numa pequena lista de tunes mais populares pelo Brasil, O Pint Diário elaborou uma playlist de sets que pode ser usada para conhecer e praticar. Acesse pelo link abaixo e comece a tocar já!


https://open.spotify.com/playlist/0egHyzhCyJL1wmVloeHgGK?si=6d0d88ef48fa4920






• FERRAMENTAS ÚTEIS •


Compilamos aqui uma lista de ferramentas úteis para o instrumentista moderno que busca otimizar seus estudos e explorações:


  • TheSession.org – o maior fórum online sobre música irlandesa no mundo, ao mesmo tempo que uma enciclopédia com 99% de todas as tunes tradicionais e modernas que são tocadas por aí. Cada tune tem uma página própria com diferentes versões de partituras em diferentes tons, audios midi e discussões dos membros do site. Para ser membro é grátis, basta criar um login e senha. Cada usuário pode criar um tunebook próprio, salvando numa mesma lista as tunes que for tirando ou pretende tirar, por exemplo.

  • Tunepal.org – muito popular na Irlanda, o Tunepal é o Shazam do trad irlandês. Trata-se de um aplicativo online, para iPhone ou para Android que reconhece (com uma boa margem de acertos) tunes que tocamos e nos dá os nomes, partituras e audios midi, sempre com lastro nas páginas do TheSession. Muito útil para se ter no celular e ir descobrindo os nomes das tunes que a gente toca ou ouve por aí. O Tunepal também tem o recurso de manter uma lista de tunes como o tunebook do TheSession.

  • Trad Musician – outro aplicativo sensacional para Android que permite importar o seu tunebook do TheSession, com as partituras e áudios midi de cada tune de uma maneira ainda mais prática do que o Tunepal.

  • YouTube – o bom e velho YouTube é uma das melhores ferramentas para se tirar tunes. Digamos que você vai numa session, ouve uma tune muito bonita que quer tirar, acha o nome no Tunepal e salva no seu tunebook – mas convenhamos que ninguém merece tirar tune usando áudio midi, certo? Então você pode procurar no YouTube por alguém que esteja tocando ela solo ou em grupo, e você com certeza vai encontrar. O player do YouTube tem um recurso muito bom de diminuir a velocidade dos vídeos, o que facilita imensamente distinguir cada uma das notas.;

  • Online Academy Of Irish Music – a inscrição no site não é barata para quem vive sob a égide do Real, mas essa é uma das mais incríveis instituições que reúne video aulas de música irlandesa. Organizadas por cursos básicos, intermediários e avançados de cada um dos instrumentos do trad, as aulas são dadas (em inglês) por alguns dos mais célebres instrumentistas irlandeses, como por exemplo o flautista Kevin Crawford (Lúnasa). A OAIM também tem sessions virtuais para praticar.

  • Comhaltas Brasil – a Comhaltas é uma organização irlandesa de fomento e promoção da música tradicional irlandesa que abre filiais por todo o mundo para facilitar o acesso de diversos países ao trad, organizar eventos, informar e ensinar. Qualquer brasileiro pode se filiar à Comhaltas Brasil mediante o pagamento de uma modesta anuidade de 30 reais e ter acesso a material didático, aulas, consultoria e incrição preferencial e gratuita em eventos e workshops que eles promovem aqui ao longo do ano, trazendo músicos da Irlanda para dividirem seus conhecimentos conosco.






• COMO COMEÇAR UMA SESSION? •


Se você tem vontade de começar uma Irish session na sua cidade, você veio ao lugar certo. O Pint Diário tem um artigo especialmente dedicado a esta empreitada, e se você entrar em contato conosco ou com a Comhaltas Brasil, podemos te orientar pessoalmente.


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